Se, em 2016, a blindagem do Centrão se deu pela derrubada
de Dilma, a de 2026 pretende se dar pela derrota de Lula
A liquidação
do Will, braço do grupo Master com clientela nas
classes C e D, amplia as faixas de renda afetadas pelo desmonte de um banco
cuja teia de interesses se infiltrou no Estado. Dos três Poderes saem as
informações que os enredam, num filme parecido com o da Lava-Jato. O Executivo
é o Poder menos envolvido, mas, paradoxalmente, é aquele que mais tem que se
preocupar. A efeméride ganhou um ponto de interrogação: 2026 repetirá 2016?
É outro o país, tanto que Luiz Inácio Lula da Silva voltou
à Presidência. É outra a natureza do caso. Não há contratos estatais - o que
não significa que o Estado não venha a ser lesado - e, sim, negócios
sancionados por brechas regulatórias que permitiram de ganhos estratosféricos a
lavagem de dinheiro até do crime organizado. As brechas se alargaram com a
conivência de agentes públicos e até de braços dados com eles.
E é outra a arbitragem do rolo, se é que
existe alguma. Em 2016, quem arbitrou (mal) o jogo foi o Supremo
Tribunal Federal que, desta vez, para dizer o mínimo, está sem
legitimidade para fazê-lo enquanto não tomar providências para afastar, para
começo de conversa, o ministro Dias Toffoli do caso. Da visita
do presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, ao ministro Flávio
Dino, no Maranhão, sobrou, como única conclusão, a que a questão Toffoli é
incontornável.
Nesse jogo de várzea, os investigados tratam de jogar lama
uns nos outros e naqueles que os investigam. Aliados do Master na política
tratam de garantir um fôlego ali outro acolá nas instituições de controle para
que ninguém pense em delação. Com seu questionamento à liquidação do Master
pelo Banco Central, o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, cumpriu
esta função, mas acabou enquadrado. Se ainda não fizeram o mesmo no STF é
porque Toffoli conta com aliados dentro do próprio tribunal.
A origem da lama explica quase tudo. Aliados de Daniel
Vorcaro têm se engalfinhado com aqueles de seu ex-sócio, Augusto Lima. Ambos
foram presos na mesma operação. Soltos com tornozeleira eletrônica, continuam
sob investigação. Lima é casado com uma ex-ministra de Jair Bolsonaro, mas seu
ingresso no Master se deu a partir de negócio decorrente de uma privatização na
Bahia pela gestão petista.
Este vínculo sempre preocupou o Planalto, mas não impediu
que as operações seguissem. O sinal mais evidente desta preocupação foi a
nomeação do ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva. Antes de ocupar
cargos sob Dilma Rousseff e Lula, Wellington foi o escolhido, de uma lista
tríplice, para chefiar o Ministério Público da Bahia pelo então governador
Jaques Wagner.
Ao fim de sua primeira reunião no Planalto, o novo ministro
disse que o principal tema havia sido o Master, no que foi logo corrigido pelo
ministro Sidônio Palmeira (Secom). Se é verdade que nenhum MJ controla a
Polícia Federal, é razoável imaginar que o ministro da Casa Civil, Rui Costa,
que não tem proximidade com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, cultive,
pelo menos, a expectativa de ser melhor informado.
Na dita reunião, com Wellington, Sidônio, Costa, Andrei e
Dario Durigan (Fazenda), Lula cobrou investigação. O presidente o faz com a
mesma veemência de Dilma Rousseff no início da Lava-Jato. Como acredita que não
tem nada a ver com tudo isso, manda ir pra cima, não sem antes garantir um
melhor fluxo de informações.
Em 2016, os próceres do Centrão envolvidos derrubaram Dilma,
subiram ao poder com Michel Temer e propiciaram a ascensão da extrema-direita
bolsonarista. Entre os petistas presos, aquele que hoje governa o país é
obcecado em vingar sua biografia. Se o presidente está escaldado, o Centrão
sofisticou sua blindagem enredando o Legislativo e o Judiciário no crime e
ampliou sua presença no Congresso tornando o Executivo mais dependente.
Basta ver como este bloco de poder foi capaz de envolver, na
mesma trama, o escritório da família do ministro que enfrentou o golpismo,
Alexandre de Moraes, e o filho que Bolsonaro quer colocar no Planalto. O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mora numa casa financiada a modestíssimos
juros pelo BRB, sócio do Master.
Só será possível medir a temperatura com a qual o caso
Master afetará a relação entre os Poderes neste ano eleitoral quando o
Congresso voltar do recesso. Lula entregou o comando da Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a quem não
apenas cabe chancelar uma eventual CPI como conduzir a aprovação do ministro
Jorge Messias (AGU) para o STF. É tão incerto o desfecho de uma CPI e tão
grandes as contas a pagar de suas lideranças, que o Congresso tende a se
acautelar. Já a pauta governista na Casa passará por barganhas sem fim.
Lula conta com dois ativos para evitar que a imagem de seu
governo seja contaminada por esta crise. Um se pauta numa política externa que
administrará o bônus do acordo do Mercosul com a União Europeia ante o avanço
de Donald Trump. O outro são as próprias eleições presidenciais.
Se, em 2016, a blindagem do Centrão foi alcançada pela
derrubada de Dilma, desta vez, a melhor maneira de fazê-lo será pela derrota de
Lula. Para convencer o eleitor de que a alternativa à sua eleição é a entrega
do Estado brasileiro para o crime, Lula não terá como tergiversar na garantia
de que a PF vai até o fim.

Nenhum comentário:
Postar um comentário