Temos certa tradição de ferir o que o ex-presidente José
Sarney chamava de “liturgia do cargo” com palavras que não deveriam estar na
boca dos presidentes.
Na era classificada como “do populismo”, corremos o risco de
ter uma campanha eleitoral de baixo nível, mesmo que o candidato oficial do
bolsonarismo, senador Flávio Bolsonaro, se disponha a fazer o papel de
moderado, que não cabe no figurino do irmão autoexilado, muito menos no do pai
preso. Embora a linguagem populista não seja obrigatoriamente escatológica, já
temos certa tradição de ferir o que o ex-presidente José Sarney chamava de
“liturgia do cargo” com palavras que não deveriam estar na boca dos presidentes.
Nesta semana o presidente Lula esteve na
inauguração de mais imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida. Disse que foi
ideia dele acrescentar uma varanda nos apartamentos, que apelidou “varanda do
pum”. Passou então, sob aplausos, a explicar que a tal varanda permitiria que
alguém pudesse sair da sala para que os demais integrantes da família não
ficassem sujeitos “aos gases que ninguém pediu para o camarada soltar”.
Aparentemente fez sucesso, a maioria riu e aplaudiu. Mas a “liturgia do cargo”
foi por água abaixo.
O uso explícito da escatologia (referência a fezes, urina,
excreções corporais) faz parte desse populismo que procura se aproximar do
povo. A linguagem deixa de ser mediadora institucional para ser definidor de
identidade. Na linguagem populista, a quebra de decoro não é descuido, é
método. Lula já havia passado desse limite numa conversa que vazou, quando era
investigado pela Lava-Jato. Mandou Fátima Bezerra e Maria do Rosário irem para
cima de um procurador de Rondônia, que tinha histórico de bater na mulher.
— Cadê as mulheres de grelo duro? — perguntou, indignado, o
presidente.
Não é Lula, apenas, quem ultrapassa os limites da linguagem
com seu jeito populista de ser. Já tivemos um presidente, Fernando Collor, que
anunciava ao microfone ter “aquilo roxo”. Antes, o general Figueiredo garantiu
que gostava mais de cheiro de cavalo que de povo. Como sabemos, por meio do
ChatGPT, o suor é uma secreção da pele cujo cheiro forte surge quando as
bactérias se decompõem pelas glândulas das axilas e da virilha. Claro que o
general quis dar uma resposta impactante a quem lhe fazia tal pergunta — e
ficou na História.
Quem quebrou o recorde de linguagem chula foi o
ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje na cadeia. Exemplos de expressões chulas que
usou com frequência: “cagar regra” em declarações públicas; comentários sobre
funções intestinais (“fazer cocô dia sim, dia não”) em transmissão oficial
durante a pandemia; publicação e comentários com referências a urina e
secreções que repercutiram internacionalmente. Recursos recorrentes:
coloquialismo e palavrões; metáforas corporais ou grotescas ( isso o presidente
americano, Donald Trump, usa muito); ironia agressiva e insultuosa.
O objetivo não é convencer pelo argumento, mas sinalizar
pertencimento (“ele é um dos nossos”). A retórica populista busca o conflito
permanente, como mostram os exemplos daqui e de Trump nos Estados Unidos. A
comunicação cria a sensação de que as instituições atrapalham a vontade
popular, e o líder se apresenta como atalho. Quando aparece, a escatologia
cumpre funções específicas: produz choque midiático imediato; desorganiza o
debate racional; humilha simbolicamente o adversário; reforça a imagem de “autenticidade
brutal”. É uma retórica de rebaixamento deliberado do espaço público,
aproximando política de espetáculo. No populismo, contradições não são
problema. A fala vale mais que o programa; a reação importa mais que a
precisão; o “sentimento de verdade” substitui fatos. A comunicação funciona
como mobilização contínua, não como prestação de contas.

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