A corrupção passou a ser vista como um simples incômodo:
uma "gripe de consciência". Há um sentimento geral de que tudo o que
é legal pode ser feito, mesmo que não seja decente
As epidemias biológicas contagiam pelo contato; as epidemias
morais contaminam pelo exemplo. O comportamento dos líderes espalha a corrupção
ao ponto de a honestidade, que era um valor ético generalizado, passar a ser
mania de poucos excêntricos que ainda a praticam. Em vez de servir à
comunidade, os agentes públicos, especialmente mas não apenas os políticos,
passaram a priorizar os próprios interesses, usufruir das funções, sem respeito
aos interesses nem à opinião pública. As eleições perderam o propósito de
escolher quem apresenta as melhores propostas para o país e passaram a eleger
quem oferece vantagens pessoais ao eleitor. Tal como nas epidemias biológicas,
ao contaminar a maior parte da população, a corrupção passou a ser vista como
um simples incômodo: uma “gripe de consciência”.
Há um sentimento geral de que tudo o que é
legal pode ser feito, mesmo que não seja decente; e de que o que é ilegal pode
ser praticado, desde que não seja descoberto. A diferença em relação aos
antigos coronéis é que os atuais usam dinheiro público para beneficiar seus
eleitores, agora informados por outdoors ou redes sociais. O setor público
brasileiro gasta bilhões com supersalários viabilizados por truques legais
promovidos pelos próprios beneficiários. Em um país cujo rendimento médio
mensal mal chega a R$ 3 mil e em que mais de 50 milhões de pessoas vivem com
rendimento domiciliar per capita abaixo de R$ 1,5 mil, um pequeno grupo
de privilegiados aufere remunerações que chegam a superar 100 vezes o salário
mínimo de um trabalhador, além de contar com dezenas de penduricalhos e
privilégios que fariam inveja às elites aristocráticas e aos ditadores mais
extravagantes. Esse exemplo contamina e alimenta a epidemia do vírus da
corrupção e faz com que ela pareça tão legal e natural que os excluídos passam
a aceitar a existência dos privilégios, desejando, um dia, ter também acesso a
eles, como escravos que sonhassem morar na casa-grande e não em abolir a
senzala.
Os governos brasileiros gastaram, no ano passado, cerca de
R$ 31 bilhões para pagar precatórios, resultantes não apenas de erros e
inoperância administrativa, mas também de alianças e tráfico de influência
entre sindicatos, advogados e aqueles que decidem esses pagamentos, definindo
sua legalidade e o momento de sua quitação, mesmo em detrimento de serviços
públicos essenciais. Quando um médico recebe honorários muito acima do que
recebem outros igualmente competentes, passa-se a ideia de que existe algum tipo
de tráfico de influência com Deus. Isso vale para outras profissões que
dependem de redes de prestígio ou de mecanismos de poder.
Até mesmo bondades sociais foram corrompidas: bolsas sem
exigência de contrapartida escolar ou produtiva; diplomas de curso superior sem
exigência do respectivo conhecimento; greves justas por melhores salários de
professores nas escolas públicas que provocam concentração de renda ao negar
escola aos filhos das camadas de baixa renda; estabilidade no emprego
transformada em argumento para descuido no trabalho.
A epidemia da corrupção, sob a forma de apropriação de
recursos públicos, de ineficiência, desperdício e prioridades equivocadas
espalhou-se tanto quanto os vírus biológicos, que, ao contaminarem a maioria da
população, passam a ser parte do organismo, sentida apenas como um incômodo
passageiro nos dias seguintes a um escândalo, logo aceito, explicado e
normalizado por estar dentro da lei, embora seja indecente. A corrupção chegou
a tal ponto que denunciar esse comportamento passou a ser visto como atitude preconceituosa
contra o Estado ou a favor de meritocracia.
A corrupção deixou de ser exceção e foi normalizada: o crime
organizado transformou-se em crime superorganizado, incorporando não apenas os
que estão fora da lei, mas também os que fazem e administram as leis. Crime
organizado é quando a máfia unifica bandidos; crime superorganizado é quando
incorpora bancos, bancas, tribunas e tribunais em suas conexões.
É possível que isso já existisse durante a ditadura sem que
soubéssemos, mas a democracia não trouxe vacina anticorrupção, ampliou para
bilhões os valores desviados e legalizou suas práticas, permitindo que as
tolerássemos como simples “gripe de consciência”.

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