A institucionalidade do sistema financeiro está sendo
posta em xeque, apesar das consequências de uma ruptura nessa ordem
institucional para toda a economia
O caso do Banco Master não é uma flor do recesso do
Congresso, as conexões políticas do banqueiro Daniel Vorcaro são da pesada e
estão por trás dos questionamentos à decisão do Banco Central (BC) para anular
a liquidação. Nesta terça-feira, o Banco Central (BC) recorreu ao Tribunal de
Contas da União (TCU) para contestar a decisão monocrática do ministro Jhonatan
de Jesus que autorizou a realização de uma inspeção nas dependências da
autoridade monetária.
“Flor do recesso” é um jargão comum no
jornalismo político brasileiro. A expressão tem sentido de algo efêmero, que
“floresce” na ausência de atividades legislativas e, muitas vezes, perde a
relevância ou “fenece” quando os parlamentares retornam ao trabalho e a pauta
normal é retomada. Esse não é o caso. Os fatos apontam na direção oposta. É
muito provável a abertura de uma CPMI nada confiável para investigar o caso.
O que está em curso é um explícito choque institucional,
protagonizado pelo TCU e o Banco Central, tendo como terreno de disputa o
Supremo Tribunal Federal (STF). O epicentro da crise está na divergência sobre
competências, métodos de fiscalização e acesso à informação. De um lado, o TCU
sustenta que operações envolvendo recursos públicos e instituições financeiras
com relações diretas ou indiretas com o Estado devem se submeter ao seu poder
de controle externo. De outro, o Banco Central afirma que a supervisão
prudencial do sistema financeiro é atribuição exclusiva da autoridade
monetária, protegida por sigilo técnico e regulatório indispensável à
estabilidade do sistema.
Esse conflito raramente se manifesta de forma nítida. Até
onde vai o poder do TCU quando se trata de operações financeiras complexas, e
onde começa a autonomia técnica do Banco Central? A resposta envolve a
arquitetura do Plano Real, o regime de autonomia do BC e o papel constitucional
do Tribunal de Contas no controle do gasto público. Por isso, a
institucionalidade do sistema financeiro está sendo posta em xeque, apesar das
consequências que uma ruptura nessa ordem institucional pode ter para toda a economia.
O TCU passou a questionar a liquidação do Banco Master que,
na sua avaliação, pode ter impactos relevantes sobre o uso de recursos
públicos, direta ou indiretamente. O tribunal reivindica seu papel
constitucional de fiscalizar a legalidade, a economicidade e a legitimidade de
atos que envolvam o Estado. Isso vai além da opinião política ou do ruído
retórico, é um movimento formal, ancorado em prerrogativas institucionais. Por
trás da polêmica, estão operações temerárias do Banco de Brasília (PRB) e do Fundo
Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro (Rioprevidência), entre
outras instituições.
Crise de confiança
O Banco Central reagiu com firmeza. Para seu presidente,
Gabriel Galípolo, permitir que o TCU acesse informações sensíveis de supervisão
bancária sem limites claros, com razão, pode abrir um precedente perigoso. O
argumento central é técnico: a eficácia da regulação financeira depende de
confidencialidade, previsibilidade e centralização decisória. Qualquer fissura
nesse modelo poderia gerar instabilidade, afetar a confiança no sistema
bancário e comprometer a própria política monetária.
Com o retorno das atividades legislativas, porém, a crise
tende a se aprofundar, porque há chefes políticos envolvidos com Vorcaro. A
divergência envolve interpretações constitucionais distintas e, muito
provavelmente, exigirá arbitragem do STF. O episódio será precedente
estruturante para o equilíbrio entre controle externo e autonomia regulatória
ou para o caos. Na prática, o TCU corrobora a intervenção do ministro do STF
Dias Toffoli, que abriu “de ofício” uma investigação policial sobre o caso.
O choque entre TCU e BC expõe a fragmentação do sistema de
controle do Estado brasileiro em múltiplos órgãos com poderes sobrepostos:
tribunais de contas, agências reguladoras, controladorias, Ministério Público e
Judiciário. Em períodos normais, essas fricções são subterrâneas. No caso
Master, porém, são explícitas e geram paralisia, insegurança jurídica e
disputas de narrativa na mídia. Está em jogo a definição prática da competência
institucional. O TCU sinaliza que o Congresso quer contingenciar as regras do
jogo no mercado financeiro.
O caso Master subverte a relação entre transparência e
estabilidade. O TCU opera sob a lógica da publicidade e do controle
republicano; o Banco Central, da discrição e da prevenção de riscos sistêmicos.
Nenhuma das duas é ilegítima. O problema surge quando essas lógicas colidem.
Por trás de tudo, há conexões perversas entre agentes do mercado financeiro e
atores políticos, de legalidade duvidosa. Há uma operação política muito pesada
para anular a liquidação. No mercado financeiro, isso é visto como grave ameaça
de quebra de confiança no sistema financeiro por parte de investidores e
correntistas. Esse é o busílis.

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