As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham
terror pelas ruas na Venezuela, e a insegurança jurídica impede que se faça um
planejamento de longo prazo para o país.
A estratégia de Donald Trump de não invadir a Venezuela, mas
transformar o governo chavista em marionete manipulada à distância, como se
fosse um drone teleguiado, esbarra em detalhes fundamentais: a violência
interna está aumentando, com repressão até mesmo aos que apoiam os Estados
Unidos. As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas,
e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para
o país.
Esta última razão explica quase toda a
relutância que as grandes companhias de petróleo têm em investir largas somas
de dólares na recuperação do sistema petrolífero venezuelano, que não atua nem
com 10% da capacidade, pois está destruído por falta de manutenção, quando não
desatualizado. Nenhuma petrolífera injetará bilhões a longuíssimo prazo na
Venezuela diante de uma situação incerta, em que ninguém sabe quem manda, quem
não manda, quais são as regras, se são as dos Estados Unidos ou da ditadura venezuelana.
Trump claramente não invadiu com tropas o país pela ojeriza
da maioria da sociedade americana às guerras de ocupação dos últimos anos, que
deram errado e provocaram milhares de mortos e incapacitados. O próprio
movimento Make America Great Again (Maga) não apoia intervenções
internacionais, considerando, como Trump prometeu na campanha, que os esforços
internos devem ser a prioridade do governo.
Ser um ditador at large pode parecer boa ideia em teoria,
mas a prática dessa modalidade de intervenção não parece muito viável. Trump já
disse que as leis internacionais só funcionam quando coincidem com seus pontos
de vista, o que basta para entender que a democracia e o Direito Internacional
não são obstáculos a seus desígnios. A democracia nunca foi seu regime
preferido, infere-se de suas palavras e atos. Mas onde não existe o equilíbrio
que só a democracia fornece, com segurança jurídica, não há condições de
investimentos de longo prazo.
Ou isso, ou então uma ditadura como a chinesa — onde a
estabilidade do capitalismo de Estado é garantida. Certa vez, numa mesa de
debates sobre a China no Fórum Econômico Mundial em Davos, vários empresários
americanos com investimentos por lá foram questionados se não temiam uma
mudança de regras abrupta. Um deles deu uma resposta que nunca esqueci:
— Já ganhamos tanto dinheiro lá que não fará diferença.
Na Venezuela existem, digamos assim, uma intervenção branca
dos Estados Unidos e um governo organizado em torno de normas ditatoriais que
ninguém sabe quais são, mas que continuam em vigor. Trump aparentemente
prossegue com sua política expansionista, de olho na Groenlândia e já nomeando
o secretário Marco Rubio como futuro presidente de uma Cuba retomada pelas
forças americanas. Se acontecer, será mais uma guerra decretada por questões
familiares.
A invasão do Iraque pode ser vista como revanche de Bush
filho para compensar a impossibilidade de Bush pai de derrubar Sadam Hussein,
quando os Estados Unidos, em 1991, lideraram a coalizão para libertar o Kuwait
do Iraque. Agora, a família de Rubio, que saiu de Cuba pouco antes da tomada do
poder pelos guerrilheiros liderados por Fidel Castro, voltaria ao país natal
com o poder imposto pelos americanos. O próprio Rubio descreveu em suas
memórias um sonho:
— Eu me gabava de que um dia lideraria um exército de
exilados para derrubar Fidel Castro e me tornaria o presidente de uma Cuba
livre.
Trump começará a cair na real, não é só a força que resolve.
A democracia permite estabilidade a longo prazo para que as empresas possam
fazer planejamento sem grandes surpresas. Essa é a vantagem das democracias, e
é a grande desvantagem quando elas não são organizadas minimamente na economia.
A tendência é que uma hora o petróleo fique superado como fonte de energia.
Trump tem mais três anos à frente do governo, e os investimentos que propõe às
petrolíferas na Venezuela são de em torno de dez anos para colocar de pé a
indústria.

Nenhum comentário:
Postar um comentário