Hélio Pellegrino descreveu em livro há mais de 30 anos
não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos
Há pensamentos que o tempo não consome porque são escritos
no nervo exposto de um país. O de Hélio Pellegrino é um deles. Resgatar hoje
sua obra “A burrice do demônio”, mais de três décadas depois, é perceber como
ele descreveu não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos,
atravessado por desigualdades brutais, violências de Estado e uma tentativa
insistente de organizar a burrice como projeto político.
Psicanalista, marxista, homem de fé e de poesia, recusou
compartimentos. Para ele, a psicanálise não era luxo de consultório, mas
instrumento de justiça social. Ao falar de desejo, falava também de salário, de
moradia, de racismo, de tortura, de manicômios. Foi um dos primeiros a formular
ideias como “sintoma social”, “patologia social” e “perversão social”,
mostrando que alguns sofrimentos não cabem apenas no código do diagnóstico,
nascem de estruturas históricas perversas, de pactos silenciosos de exclusão.
Por isso seus textos soam tão atuais diante
de um Brasil que ainda naturaliza chacinas em favelas, superlotação carcerária
e mortes evitáveis em comunidades terapêuticas. A burrice do demônio, para
Hélio, não era falta de inteligência, mas recusa ativa da realidade, a escolha
de justificar o injustificável.
Na contramão dessa cegueira, ele apostou numa psicanálise
que escuta o sofrimento e se recusa a ser neutra diante da injustiça. Escutar,
para ele, era ato político. Foi patrono da Psicanálise Socialmente
Compromissada no Brasil, ao ousar fundar a primeira Clínica Social de
Psicanálise do país, ao lado de Kattrin Kemper. Afirmava que o inconsciente
fala nas ruas, nos manicômios, nas prisões.
Muito antes de a luta antimanicomial tornar-se política
pública, ele já denunciava os manicômios como lugares de anulação e silêncio.
Sua crítica permanece atual diante dos ventos regressivos que, sob o pretexto
de cuidado, reabilitam práticas manicomiais e impulsionam a expansão das
comunidades terapêuticas como novos dispositivos de exclusão.
Sua aproximação com a Teologia da Libertação nasce de uma fé
que não anestesia, mas desperta. Em vez da religião como ópio, Hélio vislumbrou
uma espiritualidade que marcha ao lado dos pobres, como “antiópio”, força de
organização, coragem e esperança. A intersecção entre psicanálise, marxismo e
Teologia da Libertação inscreve sua obra em um horizonte raro, e, nessa
encruzilhada, ele procurou sempre a dignidade concreta dos corpos e das vidas.
Repristinar sua obra é mais que reencontrar um grande
escritor, é recuperar uma bússola ética. Em tempos de negacionismo, discursos
de ódio e apelos autoritários, Hélio nos lembra que pensar é um ato de coragem
e que nenhuma clínica é inocente, nenhuma teoria é neutra, nenhum silêncio é
sem efeito político.
Seu legado nos convoca a um duplo trabalho: escutar a dor
sem psicologizá-la, reconhecendo o que nela é produzido pela história; e
conservar aceso o desejo, essa força inquieta que insiste em sonhar um país
menos brutal. Reler Hélio Pellegrino hoje é aceitar o convite a não pactuar com
a burrice organizada e a transformar em gesto de liberdade tudo aquilo que
ainda querem nos fazer calar.
*Larissa Leão de Castro, psicanalista, é vencedora do
Prêmio Jabuti Acadêmico 2025 na categoria Psicologia e Psicanálise, com o livro
“Hélio Pellegrino: por uma psicanálise política”

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