A defesa do regime inclui rever hábitos institucionais
Caso Banco Master mostra que corte precisa impor-se
limites republicanos mais estritos
Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal desempenhou um
papel decisivo na contenção de investidas antidemocráticas reais.
Não se trata de retórica nem de gratidão automática. Executivo, bolsonarismo,
setores do Legislativo, militância e influenciadores digitais, jornalismo
ativista de direita e até frações das Forças
Armadas testaram os limites da ordem constitucional.
O STF resistiu e
reagiu quando outras instituições vacilaram.
Justamente por isso, causa inquietação crescente a
constatação de que hoje a defesa da democracia passa, paradoxalmente, por
proteger o próprio STF de práticas e comportamentos que corroem sua autoridade
republicana. Um tribunal constitucional não pode ser, ao mesmo tempo, o
guardião último da democracia e o violador contumaz das regras de
impessoalidade, sobriedade e contenção que estruturam o ideal republicano.
O caso do Banco Master funciona
como catalisador dessa inquietação. Não apenas pela gravidade das suspeitas que
cercam o escândalo financeiro nem apenas pela sucessão de decisões heterodoxas,
recuos, sigilos excessivos e movimentos erráticos associados à sua condução no Supremo.
O que realmente alarma é a naturalidade com que relações
impróprias entre membros da corte, seus familiares e interesses
econômicos poderosos passaram a ser tratadas pelos próprios juízes
como irrelevantes ou como perseguições injustas e de má-fé.
Não é necessário supor crime para reconhecer o problema. Há
coisas que podem ser formalmente legais e ainda assim inaceitáveis. A
intimidade reiterada com os círculos do poder e a convivência despreocupada com
grandes interesses econômicos —sobretudo quando esses interesses se encontram
sob investigação— produzem um dano que não é penal, mas institucional. Corroem
a aparência de imparcialidade, alimentam suspeitas razoáveis e enfraquecem a
credibilidade de que o STF depende para exercer sua função.

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