O acordo é um contraponto à iniciativa individualista e
protecionista de Donald Trump com seu tarifaço
Depois de 25 anos de tratativas, vamos ver se a assinatura
virá mesmo. E mesmo com ela há um caminho a percorrer antes de entrar em vigor.
Em particular, precisa ser aprovado pelos parlamentos dos diversos países, e na
Europa, a França tem se destacado na posição contrária, conforme defendida pelo
presidente Macron. Mas esperase que seja aprovado pela maioria. Isso será
suficiente.
Sobre o assunto, o português António Costa, presidente do
Conselho Europeu, deu uma interessante entrevista a este jornal, publicada em
13/1 (B6), na qual respondeu a inteligentes perguntas da repórter Célia Froufe.
Costa, diplomaticamente, não fez referências a Donald Trump, mas ressaltou que
o acordo veio num bom momento, pois traz uma mensagem em favor do
multilateralismo, do livre comércio e do diálogo ante o unilateralismo e suas
tensões, como no caso do tarifaço imposto pelo presidente Trump – digo eu.
Costa também informou que virá para a
assinatura a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que se
empenhou bastante pelo acordo, conforme vi pela imprensa ao longo dos anos
recentes.
Costa falou das salvaguardas incorporadas ao acordo pela
União Europeia (UE) a itens agrícolas a serem exportados pelos países do Sul,
acredito eu, como uma forma de acomodar argumentos como os de Macron. Mas
garantiu que o instrumento “será usado excepcionalmente e que não terá o
objetivo de restringir o comércio entre as partes ou criar barreiras. A União
Europeia, afirmou, está plenamente comprometida com a implementação efetiva do
acordo”.
Também a f i r mou q u e , após 25 anos, “a assinatura no
dia 17 criará a maior zona de livre comércio, um mercado de mais de 700 milhões
de consumidores, o que gerará enormes oportunidades para nossos cidadãos e para
as nossas empresas”. Costa também reiterou que o acordo entre a UE e os países
do Mercosul envia ao mundo uma mensagem em defesa do multilateralismo, do livre
comércio e do diálogo, posicionando-se contra o unilateralismo e as tensões...
“Brasil e UE são dois grandes polos regionais com enorme potencial para
fortalecer ainda mais os laços que unem a Europa e a América Latina”. Note-se a
referência ao Brasil, que creio ser o interesse especial da UE.
E mais: “Este acordo pode ter chegado tarde, mas chega no
momento em que mais precisamos dele. (...) Insisto, o seu impacto vai além do
campo econômico.” Outro fator a considerar é que a paralisação da Organização
Mundial do Comércio (OMC) ou o recurso a tarifas unilaterais são sintomas de um
mundo em que o multilateralismo está sob pressão. A União Europeia tem
procurado responder com inteligência, reforçando o diálogo, a cooperação e uma
parceria global baseada em regras. (...) A América Latina é um parceiro natural
e estratégico para nós.”
Confesso que até aqui não havia percebido o enorme tamanho
do acordo em termos do elevado número de consumidores que cobre. Em ternos
populacionais, a UE é duas vezes maior que o Brasil, e tem também uma renda per
capita maior.
Será interessante acompanhar a evolução do acordo quando for
finalmente aprovado pelos parlamentos dos dois lados. Empresários de ambas as
partes se debruçarão sobre as regras em busca de oportunidades de negócios. Vi,
por exemplo, que os empresários daqui já identificaram essas oportunidades nos
casos do azeite e do queijo europeus. Não sei se os mineiros queijeiros vão se
incomodar e espero que sua reação seja positiva e procure levar nossos queijos
ao mercado europeu, pois vários deles já foram premiados em contextos
internacionais.
As entidades comerciais deveriam liderar esse esforço de
levar o acordo à prática, reunindo seus empresários para fazer isso em
conjunto. O Brasil não deve temer a concorrência, mas sim aproveitá-la para
melhorar a qualidade e a produtividade de sua produção.
Em 11 de janeiro (A17), o colunista deste jornal Lourival
Sant’Anna também fez uma avaliação muito positiva do acordo. Disse ele: “A
aprovação do acordo (...) é estratégica para o Brasil. Apesar de todas as
restrições à importação de produtos agrícolas pelos europeus, o Brasil passa a
participar da maior zona de livre comércio do mundo, com um bloco que
compartilha os valores democráticos e liberais, reduz a relativa independência
da China e o efeito das pressões americanas. No momento em que Donald Trump impõe
o seu desejo pelo uso ou ameaça da força militar, o simples fato de 31 países
dos dois continentes chegarem a um acordo sobre novas normas que regem suas
relações é uma mensagem para o mundo.”
Estarei acompanhando o que virá pela frente e eventualmente
traremos novas reflexões sobre o assunto para informar os leitores. Eu acordei
para esse assunto e também passei a vê-lo como um contraponto à iniciativa
individualista e protecionista de Donald Trump com seu tarifaço.

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