sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

LULA QUER PALANQUE COM ALCKMIN OU HADDAD EM SP

Andrea Jubé, Valor Econômico

Vice-presidente roubou a cena no ato relativo ao 8 de janeiro no Planalto

Conhecido pela discrição, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), quem diria, roubou a cena no ato relativo ao 8 de janeiro nessa quinta-feira no Palácio do Planalto. No discurso de 6 minutos, o vice foi ovacionado 5 vezes, recebendo, praticamente, um aplauso por minuto. Não bastasse a saravaida de palmas, sua fala ainda puxou o coro “sem anistia”, ao ressaltar que os condenados pela tentativa de golpe de Estado “devem sofrer o rigor da Justiça e o peso da História”.

Foi uma proeza - sobretudo, diante de uma claque lulista -, para um político que foi quatro vezes governador de São Paulo, e mesmo assim, carregava a pecha de “picolé de chuchu”. Alcunha que, no passado, impuseram até mesmo a Getúlio Vargas, o líder mais longevo da República, famoso pela arte de “tirar as meias sem descalçar os sapatos”.

Os primeiros aplausos vieram na abertura de sua fala, quando ele se voltou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para afirmar: “foi a sua liderança que salvou a democracia no Brasil”. Pode-se argumentar que essa reação partiu de uma audiência repleta de petistas, já que políticos do Centrão, que integram a base aliada, foram convidados, mas não compareceram.

A salva de palmas seguinte, entretanto, ocorreu após a menção ao seu mentor político, o ex-governador de São Paulo e fundador do PSDB Mário Covas, morto em 2001, a quem Alckmin sucedeu no Palácio dos Bandeirantes. Segundo ele, Covas - político respeitado até pelos adversários - dizia que “mulheres e homens públicos podem ser um pouco mais à direita, um pouco mais à esquerda, mais altos ou mais baixos, mais fortes ou mais fracos, mas o que os diferencia é quem tem apreço pela democracia, e quem não tem”.

A avaliação de pessoas próximas do vice é de que ficou para trás a imagem do “picolé de chuchu”. Após duas derrotas em disputas presidenciais, ele acabou alcançando projeção nacional como vice de Lula, passou longe do “vice decorativo”. Como ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, é um dos auxiliares que mais entrega resultados. Na terça-feira, o ministério mostrou que as exportações brasileiras registraram recorde histórico, mesmo sob o tarifaço do presidente Donald Trump. As vendas ao exterior somaram US$ 348,7 bilhões, superando em US$ 9 bilhões o recorde anterior de 2023.

Mais de uma vez, Lula comparou sua relação com Alckmin com o vínculo de amizade e confiança que tinha com o vice anterior, José Alencar, morto em 2011. Em breve, contudo, essa relação será colocada à prova.

Em conversa recente com o núcleo mais próximo de auxiliares, o presidente queixou-se de que, até agora, não tem palanques robustos em São Paulo e Minas Gerais, os maiores colégios eleitorais, sempre decisivos na eleição.

Pré-candidato à reeleição, Lula reclamou nessa conversa que Alckmin e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT) - aliados com mais votos em Sâo Paulo - não querem concorrer ao governo, nem mesmo ao Senado. Em 2022, Haddad foi ao segundo turno contra Tarcísio de Freitas (Republicanos). Nas pesquisas, Alckmin tem o melhor desempenho contra Tarcísio.

A nove meses do pleito, Alckmin e a cúpula do PSB já disseram a Lula que querem a reedição da chapa de 2022. Haddad, por sua vez, avisou que não quer disputar nenhum cargo, que deseja coordenar o programa de governo.

Um interlocutor de Alckmin pondera que é preciso dar tempo ao tempo, e não arrisca afirmar que o vice diria não a Lula se o presidente pedir, expressamente, que ele concorra ao Palácio dos Bandeirantes. Poucos aliados disseram “não” a Lula. Um deles foi Jaques Wagner (PT-BA), quando o petista pediu que o amigo o substituísse na chapa presidencial em 2018, papel que coube a Haddad. A dúvida, agora, é se Alckmin e Haddad, um ou outro, sustentarão o “não” a Lula.

Em janeiro de 1930, foi o Correio Paulistano, jornal oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), que chamou Getúlio de “chuchu”: “anódino, insípido e inodoro”, publicou o veículo, no dia seguinte ao primeiro comício do líder gaúcho no Rio de Janeiro. No evento, o caudilho não se destacou pela oratória eloquente nem pelo gestual expressivo. Mesmo assim, veio a Revolução de 30, ele assumiu o poder e governou por 15 anos, como ditador, e retornou anos depois, pelas urnas.

Em 2022, quando se confirmou a chapa oficial Lula e Alckmin, a campanha lançou uma propaganda mostrando uma panela no fogo, na qual se preparava uma receita de lulas com chuchu, finalizando com o slogan: “Essa mistura tem sabor de esperança”. O “picolé de chuchu”, agora, é a esperança de Lula em São Paulo, com sabor de vitória.

Craque. Pelo terceiro ano consecutivo, o ministro da Defesa, José Múcio, garantiu a presença dos três comandantes das Forças no ato do governo relativo ao 8 de janeiro. A proeza ressoa ainda maior neste ano porque, pela primeira vez, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou generais de quatro estrelas pela tentativa de golpe de Estado. A sanção recaiu sobre os generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto, que já estão cumprindo as penas. O STF absolveu, entretanto, o general Estevam Theophilo, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres (Coter).

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