Presidente se reúne com Ursula von der Leyen, no Rio de
Janeiro, e antecipa assinatura do pacto entre blocos
Apesar de o acordo de livre comércio entre Mercosul e a União Europeia ser
oficialmente assinado hoje, em Assunção, Paraguai, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva antecipou-se à celebração e assumiu o protagonismo ao receber,
ontem, a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, para uma
reunião no Rio de Janeiro. O encontro entre eles, no Palácio do
Itamaraty, foi interpretado como uma forma de destacar a preponderância do
Brasil nas negociações. Exceto no governo de Jair Bolsonaro, em 25 anos de
negociações, os maiores esforços para que o acerto entre os dois blocos saísse
foram nas presidências de Lula e de Dilma Rousseff.
O encontro com a presidente da CE embute, também, uma
insatisfação. O Paraguai, que agora preside o Mercosul, havia convocado
para a celebração da assinatura apenas os ministros de Relações Exteriores
dos países do bloco, mas mudou os planos na última hora para incluir os
presidentes, o que desagradou Lula — que decidiu não comparecer ao evento de
hoje. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, mas os demais
chefes de Estado estarão no evento: Santiago Peña (Paraguai), Javier Milei
(Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai) e Rodrigo Paz (Bolívia) confirmaram
participação.
Lula também faz questão de deixar claro,
por conta da reunião com Van der Leyen e a ausência na celebração em Assunção,
alguns aspectos. O primeiro é que o Brasil é o grande fiador do acordo,
uma vez que países como Argentina (com Milei) e Uruguai (com o ex-presidente
Lacalle Pou) em vários momentos demonstraram desinteresse em que Mercosul e UE
se acertassem. Outro é que, por causa desse descaso, a assinatura do
acordo não foi celebrada na presidência brasileira do Mercosul, encerrada em
dezembro do ano passado. A cerimônia chegou a ser convocada para coincidir com
a cúpula do bloco, mas foi adiada após novos entraves impostos por países como
a França e a Irlanda.
A ausência de Lula tem, ainda, outras camadas de protesto em
relação aos parceiros que aparecerão na foto oficial que marcará o fechamento
do acordo Mercosul-UE. Uma é que foi ele, pessoalmente, que trabalhou junto à primeira-ministra Giorgia Meloni para virar os
votos da Itália, que inicialmente apoiava, mas, depois, se colocou contra o
acerto. A mudança teve peso decisivo e o voto italiano na UE abriu a porta
para que os dois blocos finalmente se entendessem — deixando França e Irlanda isolados.
Há, ainda, a insatisfação de Lula com a invasão da Venezuela
pelos Estados Unidos e o sequestro do ditador Nicolás Maduro e da mulher dele,
Cilia Flores. Enquanto Milei, por exemplo, exultou com a operação militar e o
Paraguai concordou com ela timidamente, o Brasil condenou a agressão e deixou
claro que trata-se de uma ameaça a todos os países do continente.
Multilateralismo
Depois do encontro com Von der Leyen, eles fizeram um
pronunciamento conjunto no qual Lula destacou que os benefícios do acerto são
uma clara declaração de apoio às relações multilaterais — claro contraponto ao
que vem pregando internacionalmente o governo de Donald Trump. "O acordo
que será assinado amanhã (hoje) em Assunção, no Paraguai, é bom para o Brasil,
é bom para o Mercosul, é bom para a Europa e é muito bom, sobretudo, para o
mundo democrático e para o multilateralismo. A UE e o Mercosul compartilham
valores como o respeito à democracia, ao Estado de Direito e aos direitos
humanos. Mais diálogo político e mais cooperação vão garantir padrões elevados
de respeito aos direitos trabalhistas e a defesa do meio ambiente",
frisou.
Lula também citou a dificuldade na finalização do acordo.
"Foram mais de 25 anos de sofrimento e tentativa de um acordo",
enfatizou, destacando que tornou a celebração da conexão comercial entre
Mercosul e UE uma prioridade do atual mandato. Disse também que o tratado, nos
termos atuais, não prejudica o papel do Estado em áreas como saúde,
desenvolvimento industrial, inovação e agricultura familiar, mantendo a
autonomia das nações envolvidas, e que haverá mais empregos e oportunidades dos
dois lados do Atlântico.
Ele também ressaltou que seu governo não quer que as
exportações beneficiadas sejam apenas as do agronegócio. "Não nos
limitaremos ao eterno papel de exportador de commodities. Queremos
produzir e vender bens industriais de maior valor agregado. O acordo prevê
dispositivos que incentivam empresas europeias a ampliarem seus
investimentos", observou.
Para a presidente da CE, a oficialização do acordo ocorrerá
devido ao esforço de Lula. "O compromisso pessoal e a paixão que o senhor
(Lula) mostrou nas últimas semanas (para assinar o acordo), caro presidente,
foram realmente enormes. Muito obrigada por direcionar e entregar esse acordo
histórico", afirmou Von der Leyen.
Para a representante europeia, o acordo comercial
fortalecerá a relação entre os continentes na área de investimentos em recursos
minerais. "Saúdo o fato de a Europa e o Brasil estarem avançando em
direção a um acordo político muito importante sobre matérias-primas críticas.
Ele (o acordo Mercosul-UE) enquadrará nossa cooperação em projetos de
investimento conjunto em lítio, níquel e terras raras", enumerou.
Von der Leyen salientou que os investimentos relacionados às
terras raras e a minerais vão fomentar a transição energética para uma matriz
mais "limpa".
Mínimo baixo
Lula afirmou, ontem, que o salário mínimo no Brasil é
"muito baixo" e que, desde que foi criado — em 1936, no governo
de Getúlio Vargas, por meio da Lei 185 —, não cumpriu a função de
garantir que os trabalhadores tenham direitos fundamentais como moradia e
alimentação. O comentário foi na cerimônia que lançou a
medalha comemorativa dos 90 anos da criação do piso salarial, na Casa da Moeda,
Rio de Janeiro.
"Não estamos fazendo apologia ao valor do salário
mínimo. O valor é muito baixo no Brasil. Estamos fazendo apologia, aqui, da
ideia de um presidente da República que, em 1936, criou a possibilidade de se
estabelecer um salário que garantisse aos trabalhadores os direitos elementares
a que todos nós temos direito: a gente morar, a gente comer, estudar e ter o
direito de ir e vir", afirmou Lula.
Segundo o presidente, "desde que foi criado, o salário
mínimo não preenche os requisitos da intenção da lei". Atualmente, o é de
R$ 1.621 e uma das promessas de campanha do presidente, implementada
no início do governo, foi o aumento anual do salário mínimo acima da inflação.
Lula também fez um alerta sobre os usos da inteligência
artificial (IA), especialmente em ano eleitoral, e citou casos de imagens
sexualizadas que circulam no X (antigo twitter), produzidas pela ferramenta
Grok, da própria plataforma, sem regulamentação. "Vocês, mulheres, tomem
cuidado com essa tal de inteligência artificial. Ela é capaz de tirar uma foto
sua, sentada — do jeito que vocês estão aqui —, e colocar você pelada no
celular. É isso que é a IA. Se preparem, porque a podridão não está nem começando
na inteligência artificial. E todos nós gostamos de coisas fáceis",
advertiu.
Usuários do X passaram a produzir as imagens sexualizadas,
inclusive de crianças, depois de a plataforma iniciar o serviço de geração
de imagens do Grok. A ferramenta chegou a ser banida em países como Malásia e
Indonésia. Nações europeias começaram investigações sobre as imagens. O dono da
plataforma, o bilionário Elon Musk, inicialmente desdenhou das acusações, mas,
nesta semana, o X anunciou medidas para impedir a geração das imagens.
Lula também disparou críticas contra as bets, plataformas
on-line de apostas, que foram regulamentadas. "O cassino entrou dentro da
casa da gente para uma criança de 10 anos pegar o telefone do pai para jogar,
com essa quantidade de bets que foi criada. Estão tomando conta do futebol, da
publicidade e da corrupção. Porque vocês estão vendo o trabalho do Banco
Central tentando fazer com que essa gente pague, pelo menos, imposto neste
país", cobrou.

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