Não há “caso pequeno” quando o caminho do dinheiro se
mistura ao poder. O detalhe institucional mais sensível talvez tenha sido a
disputa sobre a custódia das provas
As investigações da Polícia Federal (PF) sobre o Banco
Master e a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC), em
novembro, transformaram um caso bancário em um teste de resistência
institucional do Brasil. Não se trata apenas de apurar uma fraude financeira —
que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, descreveu como possivelmente a
“maior fraude bancária” do país —, mas de medir até que ponto os pilares que
sustentam a economia continuam protegidos contra pressões políticas, atalhos
jurídicos e redes de influência, que rondam os tribunais superiores do país,
inclusive o Supremo Tribunal federal (STF).
Daniel Vorcaro, fundador e CEO do Master,
não figurava entre os gigantes do sistema, mas se tornou protagonista nacional
desse risco sistêmico pelo volume de dinheiro envolvido, pela capilaridade de
sua base de investidores e pela teia de conexões que construiu no mundo
político e jurídico. A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na
quarta-feira, reforçou essa dimensão: mandados de busca e apreensão em 42
endereços, bloqueio de bens e valores acima de R$ 5,7 bilhões e o avanço sobre
figuras como Nelson Tanure e João Carlos Mansur indicam que a apuração não é
periférica — e que não há “caso pequeno” quando o caminho do dinheiro se
mistura ao poder. Na verdade, começou um efeito dominó.
O detalhe institucional mais sensível talvez tenha sido a
disputa sobre a custódia das provas. O ministro Dias Toffoli determinou
inicialmente que todo o material apreendido pela PF ficasse lacrado no STF,
medida fora da praxe. Após pedido da Procuradoria-Geral da República, voltou
atrás e decidiu remeter o conteúdo à PGR. Na prática, sem embargo da
tecnicalidade, é um sinal de que o caso ultrapassou o âmbito policial e já se
transformou em arena de tensão entre instituições.
O Master aparecia como o 22º maior banco do país, com cerca
de R$ 63 bilhões em ativos financeiros, algo em torno de 2% do tamanho do Itaú,
segundo ranking do Valor Econômico. Em condições normais, sua quebra não
deveria representar risco macroeconômico clássico. Mas a crise bancária
raramente nasce apenas do tamanho: nasce da interconexão. O banco alcançou 1,6
milhão de investidores, com aproximadamente R$ 41 bilhões em CDBs, o que aciona
diretamente o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), espécie de seguro do sistema.
O impacto desse ressarcimento é da ordem de um terço do
caixa do fundo, estimado em cerca de R$ 122 bilhões em recursos líquidos. É a
maior crise de um banco brasileiro em termos de pressão sobre o FGC e, por
isso, o episódio não é apenas um escândalo financeiro: é um episódio capaz de
contaminar expectativas, percepção de segurança e credibilidade do mercado. A
estabilidade econômica depende de um elemento invisível: confiança. O
investidor que compra CDB faz um pacto: aceita juros maiores em troca de uma promessa
institucional de segurança, ancorada na supervisão do BC e no colchão do FGC.
Quando esse pacto é rompido, o prejuízo não se resume a quem investiu no banco.
O prejuízo vira dúvida sistêmica.
No olho do furacão
A liquidação do Master ocorreu após suspeitas de fraude
envolvendo a venda de carteiras de crédito ao BRB, banco estatal do Distrito
Federal, em operação de R$ 12,2 bilhões. A suspeita central é que o Master
teria inflado artificialmente ativos — inclusive com créditos inexistentes —
para melhorar sua condição financeira antes de uma possível venda. O modelo de
negócio de Vorcaro, baseado em captar recursos oferecendo CDBs com taxas acima
do mercado, ajudou o banco a crescer rapidamente. Não é crime oferecer juros
altos, porém, quando o custo do dinheiro é elevado demais, surge o retorno
“milagroso” de algum lugar.
Parte das suspeitas envolve fraudes grosseiras. Outra parte
envolve estruturas sofisticadas de fundos e intermediações que demandam perícia
técnica e abrem espaço para uma engenharia de ocultação: o dinheiro circula,
passa por gestores, atravessa fundos, reaparece em ativos de baixa qualidade,
dilui rastros e dificulta a responsabilização. A pergunta mais perigosa não é
apenas “quem praticou a fraude”, mas “como isso pôde existir por tanto tempo”.
Quando um esquema desse porte amadurece, a falha já não é apenas de um banco: é
do ecossistema regulatório e do mercado. E, se essa percepção pública se
consolida, o dano deixa de ser financeiro e se torna institucional.
O Master virou um caso explosivo porque Daniel Vorcaro
acumulou conexões no mundo político e empresarial. A tentativa de venda do
banco ao BRB, aprovada pelo Cade, mas barrada pelo BC, escancarou o choque
entre duas lógicas. A lógica política é a do acordo e da mediação. A lógica
regulatória é a do risco e da prudência. Quando o Banco Central veta uma
operação, está dizendo que, naquele caso, a autonomia técnica prevalece sobre a
acomodação.
Esse é um ponto decisivo. A independência do BC é um dos
ativos mais importantes da economia brasileira, porque reduz incerteza, melhora
previsibilidade e impede que o sistema financeiro vire extensão de disputas
partidárias. Quando a crise de um banco se transforma em um cabo de guerra
entre regulador e atores políticos, instala-se o pior ambiente possível: o de
que regras são negociáveis conforme o poder de pressão. A centralização da
investigação sob sigilo, a relatoria concentrada, decisões incomuns e a
presença indireta de ministros no noticiário criaram um risco adicional: o de o
STF ser percebido não como árbitro distante, mas como protagonista da crise.

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