Charges, caricaturas, programas humorísticos e paródias
audiovisuais cumprem o papel de tensionar o poder, expor contradições e
provocar reflexão. A inteligência artificial, nesse sentido, apenas amplia o
repertório estético disponível, permitindo encenar críticas ácidas ou
narrativas elogiosas com um grau de realismo que impressiona e engaja
Em tempos de celebração das vitórias do cinema nacional no
Globo de Ouro, voltou a viralizar, nesta semana, um vídeo publicado no fim do
ano passado sobre o Brasil Awards 2025. Trata-se de uma peça
satírica que simula uma luxuosa cerimônia de premiação fictícia, gerada por
inteligência artificial. Em um teatro sofisticado, apresentadores bem vestidos
anunciam categorias como se fosse um grande evento internacional.
A ironia central é a frase-chave exibida no
vídeo: “A única premiação onde quanto pior o governo vai… mais categoria
aparece”. O tom é provocativo, com estética de Oscar, aplausos da plateia e
discursos solenes contrastando com a crítica implícita. Na categoria “melhor
atuação”, por exemplo, o prêmio foi para “Xandão”, que é o apelido dado nas
redes sociais ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal,
pelo papel no filme ficcional O curioso caso do Banco Master e a mulher
do ministro.
Já entre os apoiadores do presidente Lula, o viral da vez é
um vídeo que simula a prática de atividades físicas pelo petista. Inspirado na
postagem da primeira-dama, Janja, no fim de semana, em que ressalta a boa forma
do presidente, as cenas, também geradas por inteligência artificial, mostram
Lula na academia, correndo uma fictícia maratona de São Paulo e disputando uma
prova de natação em mar aberto. Termina com imagens do ex-presidente Jair
Bolsonaro na prisão, vendo o vídeo em uma televisão de tubo.
Pego os dois vídeos como exemplos para abordar um tema que
precisa ser enfrentado com serenidade: conteúdos audiovisuais gerados por
inteligência artificial vieram para ficar no marketing político e no debate
público. Não se trata de uma moda passageira, mas de uma nova linguagem, capaz
de traduzir disputas simbólicas em imagens familiares, reconhecíveis, extraídas
do cotidiano e embaladas com humor, ironia ou exaltação. Gostemos ou não, esses
vídeos já ocupam um espaço relevante na formação de percepções políticas,
sobretudo nas redes sociais, onde a imagem fala mais alto do que qualquer nota
oficial.
Há, nesse fenômeno, um aspecto que não deve ser demonizado
de partida. A sátira política sempre fez parte da vida democrática. Charges,
caricaturas, programas humorísticos e paródias audiovisuais cumprem o papel de
tensionar o poder, expor contradições e provocar reflexão. A inteligência
artificial, nesse sentido, apenas amplia o repertório estético disponível,
permitindo encenar críticas ácidas ou narrativas elogiosas com um grau de
realismo que impressiona e engaja. Quando bem identificados como peças de humor
ou propaganda, esses vídeos dialogam com uma tradição legítima de crítica
pública.
O problema surge justamente na zona cinzenta que essa
tecnologia inaugura. A linha que separa o meme da denúncia, ou a ficção da
acusação, torna-se cada vez mais tênue. Vídeos hiper-realistas podem sugerir
comportamentos, falas ou situações que nunca ocorreram, mas que, uma vez
lançados no fluxo acelerado das redes, ganham status de verdade para parcelas
significativas do público. A velocidade da circulação supera a capacidade de
checagem, e o impacto emocional precede qualquer verificação racional. Não é difícil
imaginar conteúdos que coloquem autoridades em situações comprometedoras,
fabricadas digitalmente, mas verossímeis o suficiente para causar danos
imediatos à reputação, à confiança institucional e até à estabilidade política.
Em contextos de polarização intensa, a predisposição a acreditar no que
confirma convicções prévias torna o ambiente ainda mais vulnerável à
manipulação.
O desafio, portanto, não está em proibir ou censurar essas
ferramentas, o que seria ineficaz e indesejável, mas em reconhecer riscos e
exigir transparência, responsabilidade e educação midiática. Estamos
preparados?

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