Intervenção política no Fed já aconteceu nos EUA, com Nixon.
E deu errado
O temor dos investidores é de, caso confirmado Hassett, o
Fed embarcar numa campanha agressiva de redução dos juros para estimular a
economia, tendo em vista a eleição para renovar o Congresso
O presidente Donald Trump está prestes a anunciar o nome de
quem vai, a partir de maio, substituir Jerome Powell no comando do Federal
Reserve (Fed), o banco central considerado o bastião da estabilidade de preços
nos Estados Unidos, e, por tabela, da liquidez mundial, além de ser o paradigma
de independência da política monetária.
Mas será 2026 o ano em que o Fed se curvará
à pressão política, assim como aconteceu no governo de Richard Nixon na década
de 1970? Mirando a reeleição em 1972, Nixon pressionou o então presidente
do Fed, Arthur Burns, alçado ao cargo em 1970, para cortar os juros
americanos, em vez de elevá-los, como exigia uma atividade econômica
superaquecida. A consequência foi nefasta. A inflação americana pulou de 5,3%,
em 1970, para 11,8% em 1974. Nesse ínterim, Nixon até adotou – em vão – um
congelamento de preços e de salários de 1971 a 1973. O dólar e as Bolsas dos
EUA tombaram na esteira da ingerência política sobre os juros e os preços.
Entre os nomes mais cotados nas bolsas de apostas para ser o
escolhido por Trump para presidir o Fed, está o do diretor do Conselho
Econômico Nacional da Casa Branca, Kevin Hassett. Ele vem endossando o
coro do seu chefe a favor de um corte agressivo dos juros americanos. “Se você
olhar outros bancos centrais ao redor do mundo, os EUA estão bem atrás da curva
em termos de corte de juros”, disse Hassett, em entrevista recente.
O temor dos investidores, caso confirmada a nomeação de
Hassett, é de o Fed embarcar numa campanha agressiva de redução da sua taxa
básica para estimular a economia, tendo em vista a eleição de meio de mandato,
em novembro, para renovar o Congresso. As pesquisas de intenção de voto mostram
os republicanos em apuros, em razão do baixo índice de aprovação de Trump. O
aumento do custo de vida é a maior reclamação de eleitores. Cortar os juros em
excesso poderá ser contraproducente no combate à inflação.
Seja quem assumir o Fed, vai encontrar uma instituição
rachada. Na última decisão, dois diretores votaram contra o corte de juros de
0,25 ponto porcentual. Nessa reunião, a mediana das projeções para a trajetória
dos juros apontava para uma única redução em 2026. Porém, do total de 19
dirigentes, sete não preveem redução da taxa neste ano. Mesmo um único corte é
bem menos do que quer Trump. Aliás, para nomear aliados, ele demitiu a diretora
Lisa Cook, que está apelando contra a decisão na Suprema Corte. E, agora, o
Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra Powell.
Irá o Fed dobrar-se?

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