Não há precedentes de que uma potência dominante abandone
sua primazia, como Trump vem fazendo
Até recentemente, o mundo acreditava que uma dissociação
entre EUA e China estava a caminho. O que ocorre agora, no entanto, é que a
maioria dos países está correndo para dissociar-se dos riscos americanos. Como
podem atestar o presidente do banco central dos EUA, Jay Powell ou a Dinamarca,
um dos aliados mais leais dos EUA, tentar acalmar Donald Trump só te leva até
certo ponto. Pode te ajudar a comprar tempo, mas não substitui a necessidade de
proteção contra uma superpotência que saiu da linha. Estamos, portanto, nos
primeiros estágios da aceleração do processo de redução da exposição a riscos
dos EUA.
Buscar um distanciamento do poder
hegemônico mundial é um processo doloroso, em especial se você é um aliado.
Ainda assim, são justamente os amigos dos EUA os que precisam distanciar-se. O
lugar deles ao sol dependia do mundo construído pelos EUA. O choque para os
aliados europeus e asiáticos é, portanto, proporcionalmente maior. No entanto,
à rejeição americana à “ordem internacional liberal” também é um choque - ainda
que, em muitos aspectos, um choque agradável - para a China, seu principal
adversário. A China agora está se candidatando a ser a principal fornecedora de
bens públicos globais, inclusive de estabilidade.
À medida que líderes mundiais chegam a Davos, a maior parte
das conversas gira em torno a como lidar com Trump, que pretende levar metade
de seu gabinete ministerial. Mais discreta, a China estará lá para recolher os
cacos. Nesse sentido, o momento é de soma zero. Uma perda para os EUA é um
ganho para a China. Países do hemisfério americano, inclusive o Canadá, vêm se
aproximando de Pequim. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, passará pela
China antes de prosseguir para Davos. O rumo seguido por Carney é o mesmo do
restante da diplomacia mundial.
Os países vêm reduzindo a exposição a riscos principalmente
em duas áreas. A primeira é a econômica. Carney, também, mostra o caminho.
Quase 75% das exportações canadenses vão para os EUA, uma proporção que eles
pretendem reduzir para menos de 50%. Uma grande parte será redirecionada para a
China e a Índia. O acerto, na semana passada, de um tratado de livre comércio
entre a Europa e o Mercosul e o acordo do Reino Unido com a Índia, em 2025, são
cocriações de Trump. O debate britânico sobre deixar o Brexit e se aproximar da
União Europeia também se dá, em parte, por cortesia de Trump. Ele acaba
estimulando conversas de todo tipo entre terceiros, que há um ano não
ocorreriam. A Europa quer se aliar com o grupo transpacífico de países. O fato
de a China não ser membro, mas querer entrar, e de os EUA terem se retirado do
grupo no primeiro mandato de Trump, diz tudo.
Já no que se refere ao dólar, qualquer diversificação é
muito mais difícil. Mas, o ataque, agora aberto, de Trump à independência do
Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) - incluindo a abertura de uma
investigação penal contra seu presidente - também joga a favor disso. Não
importa se Powell for ou não a julgamento (ou, menos provável ainda, se for
condenado), os investidores podem aguardar por uma era de inflação mais alta
nos EUA e de enfraquecimento do dólar. Qualquer um dos que substituir Powell será
uma marionete de Trump. A era do dinheiro fácil nos EUA deve continuar
existindo mesmo quando o boom da inteligência artificial já tiver perdido
força.
O preço do ouro - historicamente a melhor proteção contra
guerras e outras pragas - subiu mais de 70% desde que Trump assumiu o cargo em
2025. O ouro também passou a representar uma proporção cada vez maior das
reservas dos bancos centrais pelo mundo, em detrimento do dólar. Até agora,
nenhum investidor deixou de comprar títulos do Tesouro americano. Trump parece
ignorar que os mercados são pelo menos tão importantes quanto o Fed na
definição dos custos de captação. Grandes retiradas de capital estrangeiro poderiam
rapidamente apagar os ganhos do dinheiro fácil obtidos com cortes de juros de
curto prazo.
No mundo das finanças, livrar-se dos títulos do Tesouro dos
EUA é o equivalente à opção nuclear. Por sua vez, a opção nuclear, em termos
literais, também paira no horizonte, como proteção geoestratégica. Não passou
despercebido o fato de Trump falar de forma amigável sobre a Coreia do Norte
nuclear. Se a Venezuela fosse um Estado nuclear, Nicolás Maduro não estaria
agora em uma prisão no Brooklyn.
Coreia do Sul, Alemanha, Austrália, Polônia e até o Canadá
vêm tendo discussões internas, em maior ou menor grau, a respeito de se
tornarem países com armas nucleares. Se Trump anexasse a Groenlândia, o Canadá
consideraria isso seriamente. O enfraquecimento da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan) desencadearia uma busca ainda maior do resto do Ocidente
por novos arranjos de segurança. A Dinamarca agora vê as vantagens de ter algum
tipo de guarda-chuva nuclear europeu como proteção.
Não há precedente histórico de uma potência dominante
abandonar voluntariamente sua liderança, em vez de ser derrotada em guerra ou
por declínio natural. Atender às exigências cada vez mais aleatórias de um
colosso revisionista traz um custo de oportunidade, na comparação com a
construção de sistemas alternativos. Os aliados dos EUA estão nesse ponto de
inflexão, entre o passado e o futuro. Trump está tornando a escolha deles mais
fácil.
Elevar o preço da proteção americana é uma coisa - e é até
algo razoável. No entanto, nenhum cliente em sã consciência estaria disposto a
pagar mais por um produto sobre cuja entrega passaram a duvidar. Trump vem
oferecendo aos parceiros dos EUA um acordo que eles, ao contrário das analogias
com a máfia, não têm como aceitar.

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