Três delas são lideradas pelos EUA, Rússia e China,
enquanto uma quarta poderá ter a liderança de Turquia, Arábia Saudita ou Irã
A intervenção de fato dos Estados Unidos na Venezuela nos
coloca novamente diante de uma divisão geopolítica em que poucos países exercem
dominância não só econômica, mas militar e territorial, sobre vastas regiões de
sua influência. O economista Joseph Stiglitz chama de “nova era do
imperialismo” os movimentos recentes. Outros preferem “novo imperialismo”,
termo que se confunde com a denominação histórica atribuída aos fatos ocorridos
nas últimas três décadas do século XIX, quando países europeus, o Japão e mesmo
os EUA decidiram “tomar conta” de pedaços dos continentes africano e asiático.
O professor José Filipe Pinto, sociólogo e
cientista político, catedrático da Universidade Lusófona, em Lisboa, tem outra
definição para a situação mundial. Para ele, vivemos hoje na era das “múltiplas
ordens”: a ordem liberal ocidental liderada pelos EUA; a ordem eurasiana, com
Moscou na liderança; a ordem que ele chama de “rota da seda”, sob a liderança
da China, e uma quarta ordem em formação, de caráter religioso, que poderá ter
um viés islâmico ou muçulmano, a depender do desenrolar dos acontecimentos em
curso.
A nova configuração dos polos de poder mundial está
associada ao populismo de direita de Donald Trump
Será muçulmana se a Turquia conseguir impor-se como líder da
quarta ordem. A maioria da população muçulmana pratica a religião islâmica, mas
o Estado é laico. Será islâmica, se obtiver a liderança da Arábia Saudita
(predominância sunita) ou do Irã (prevalência xiita). Não à toa expressivos
conflitos populares assolam hoje Teerã e outros distritos iranianos. Começaram
espontaneamente e contam com a simpatia de Donald Trump que apertou o cerco
econômico contra o regime dos aiatolás. A depender do desfecho, pode cacifar o
Irã como líder da quarta ordem, segundo a classificação do prof. José Filipe,
que a associa à ideia da Ummah, comunidade global de mulçumanos, sem fronteira
e independente de etnia, que tem o islamismo como fator de união, de acordo com
o Alcorão.
A Rússia se mantém firme na conquista de territórios da
Ucrânia e tem, no leste europeu, o apoio do grupo de concertação criado em 1991
na fortaleza de Visegrado: Hungria, República Checa, Eslovênia e Polônia. São
países desalinhados da política da União Europeia. No caso da Polônia, o
governo pró-Europa encontra divergência no presidente do país, um aliado de
Putin, que não esconde sua ambição de resgatar o poder russo sobre os países
que faziam parte da antiga União Soviética.
A China não arreda pé da intenção de anexar Taiwan. É um
projeto de país, muitas vezes defendido por Xi Jinping, enquanto continua a
conquistar influência econômica no Sudeste Asiático.
E a Europa? Como se posiciona nesse mundo das múltiplas
ordens? Deixa de ter importância. Perdeu poder e capacidade de influência no
novo ordenamento mundial. “A Europa nunca mais vai ser centro, não tem
condições de liderar uma ordem”, diz, muito objetivamente, o prof. José Filipe
Pinto.
“A Europa passa a ser semiperiferia no contexto mundial,
pois poderá ter condições de influir em temas como a questão climática,
assentada em seus princípios, mas terá de agir de forma pragmática, uma vez que
passa a ter uma posição de sujeição aos EUA”, atesta ele. Na hipótese de o
populismo assumir os governos nos países mais relevantes da região, “a Europa
passaria a ter uma relação mais alinhada com o centro de poder norte-americano,
podendo deixar de ser semiperiferia para se tornar periférica”, complementa.
Neste caso, ficaria na mesma situação em que se situa a América Latina face ao
poderio dos EUA.
De acordo com ele, aquelas quatro ordens estão em busca de
um equilíbrio. Buscam legitimidade no contexto político internacional para se
consolidarem como novos blocos de poder a partir deste primeiro quarto do
século XXI. A transformação é extraordinária quando comparada ao contexto
predominante antes da posse de Trump no seu segundo mandato, há pouco mais de
um ano. Justamente essa mudança que tem afetado o mundo tão drasticamente é o
tema do próximo livro do prof. José Filipe Pinto que será lançado até o final
de fevereiro, pela Edições Sílabo.
A nova configuração dos polos de poder mundial está
associada ao populismo de direita de Trump. “Ele tem uma interpretação própria
das relações internacionais e diz que o único limite é a sua moralidade, de
modo que tudo passa a depender do livre arbítrio dele”, comenta. Trump escolhe
os líderes europeus com os quais quer conversar, aqueles com ideologia
semelhante. Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, representante
populista do país que José Filipe considera “um laboratório de populismo”, é
uma interlocutora preferencial. Outro é o nacionalista autocrático Viktor
Órban, desde 2010 primeiro-ministro da Hungria, país, aliás, que passará por
eleições legislativas no dia 12 de abril, com potencial de introduzir uma
alternativa caso o partido de oposição, o Tisza, saia vencedor.
“O nacionalismo exacerbado levou a Europa a duas guerras mundiais, na primeira morreram dez milhões de pessoas, enquanto a segunda gerou 50 milhões de mortos, e agora voltamos a ter nacionalismo radical com o Trump”, observa o professor, para quem “o nacionalismo não desaparece, apenas adormece”. Acredita ele que a conjuntura atual possa em parte ser explicada pelo fato de a geração do pós guerra, que tinha a memória das atrocidades do radicalismo político, estar desaparecendo. “A geração mais jovem nasceu em uma sociedade garantista — que garante a liberdade individual e os direitos fundamentais — e não tem ideia do que é o nacionalismo exacerbado”.
Se aquela for a opção dos eleitores, como resolver? José Filipe Pinto acha que a solução seria a imposição de uma carta de princípios para a atuação dos políticos, com constante avaliação e fiscalização dos governos. “Os partidos, sendo importantes para a democracia, não são os donos da democracia”, diz. Na era da democracia de opinião, em que a legitimidade é flutuante, haveria espaço para uma democracia mais participativa em que o escrutínio dos políticos conteria a expansão do populismo. O processo tende a ser, no entanto, lento diante de uma realidade que se impõe aceleradamente.

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