Reação do mercado pode ter convencido Trump a mudar sua
posição de tomar a ilha à força
Os ricos e poderosos se empurravam e acotovelavam para
conseguir entrar e ver o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursar
no Congress Centre de Davos. Talvez fosse o medo de perder algo importante;
talvez fosse o desejo de presenciar um momento histórico.
Mas lá pela metade do discurso de mais de uma hora e cheio
de divagações do presidente americano, muitos dos ouvintes já estavam checando
seus celulares — ou saíam para outros compromissos.
O discurso de Trump não foi nenhum momento histórico. Mas
marcou, sim, o início de um recuo em relação à Groenlândia. Em uma das poucas
passagens relativamente coerentes, Trump descartou de maneira explícita a
possibilidade de os EUA usarem a força para tomar a ilha da Dinamarca.
Se Trump começou a recuar em relação à
Groenlândia, será porque finalmente se viu diante de alguma oposição — dos
europeus, de dentro do seu próprio Partido Republicano e dos mercados. Ao mesmo
tempo em que se gabava das novas altas do mercado de ações durante seu mandato,
ele também observou que os mercados tinham caído de forma acentuada no dia
anterior.
Foi a reação do mercado que convenceu Trump a atenuar suas
políticas tarifárias depois do seu assim chamado “dia da libertação”, em 2 de
abril. O mesmo pode estar acontecendo com a questão da Groenlândia.
Agora o presidente dos EUA exige "negociações
imediatas". Os europeus fariam bem em levar o processo adiante sem nenhuma
pressa — lembrando que Trump tem o hábito de fazer ameaças grandiosas que
depois são esquecidas. Há menos de duas semanas, ele prometia ao povo do Irã
que "a ajuda estava a caminho". Eles ainda estão à espera.
É claro que ainda é cedo demais para relaxar sobre a questão
da Groenlândia. Uma parte substancial do discurso de Trump foi dedicada ao
assunto — e ele continuou a afirmar seu argumentos estratégicos, em grande
parte falaciosos, para justificar que a posse da ilha fique com os EUA.
No discurso, Trump tentou repetidas vezes condicionar a
aceitação europeia de sua ambição de tomar a Groenlândia ao futuro da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — reclamou que os europeus não
mostram gratidão pela proteção americana e alegou, o que não é verdade, que os
EUA pagaram praticamente 100% dos custos da aliança militar. Ele também disse
que os EUA não têm nenhuma necessidade real da aliança da Otan porque estão
protegidos por um "grande e belo oceano". E lembrou à sua plateia que
Mark Rutte, o secretário-geral da Otan, certa vez o chamou de "papai"
— um erro horroroso que Rutte nunca vai superar por completo.
Mas o presidente dos EUA preferiu usar uma linguagem
vagamente intimidadora em vez de fazer ameaças explícitas e concretas. Ele
ficou visivelmente irritado com o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark
Carney, no dia anterior, que foi um apelo emocionante para que as potências
médias resistam à coerção das grandes potências.
Em seu discurso, Trump enfatizou a dependência que o Canadá
tem dos EUA e disse a Carney: "Lembre-se disso, Mark, da próxima vez em
que fizer suas declarações". Quanto aos aliados europeus dos EUA, Trump
lhes disse, a respeito da questão da Groenlândia: "Vocês podem dizer não e
nós lembraremos disso."
Só que a memória vale para os dois lados. Existe uma grande
probabilidade de que — dentro de um mês — Trump já tenha deixado para trás a
questão da Groenlândia e esteja envolvido com outra obsessão ou à procura de
outra vítima para atacar.
Mas europeus, canadenses e outros aliados americanos não
esquecerão o episódio da Groenlândia. Ele cristalizou muitos de seus temores e
ressentimentos em relação aos EUA.
O motivo pelo qual o discurso de Carney teve uma repercussão
tão ampla foi o reconhecimento explícito de que a velha ordem, baseada em um
EUA benigno, acabou. E ele foi também um chamado à ação que muitos em Davos
consideraram inspirador.
Quando Carney terminou de falar na terça-feira, ele foi
aplaudido de pé pela plateia. Trump, por outro lado, recebeu uma salva de
palmas morna. Essa diferença fala por si só.

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