Trump é expressão e instrumento de uma insurreição
anômala, fora dos marcos de tudo que é a ordem política
Um conjunto extenso e complexo de anomalias políticas da
realidade internacional deram-se a ver com o ataque dos EUA à Venezuela no dia
3 de janeiro e o sequestro do presidente daquele país e de sua esposa e a
transferência de ambos, algemados, para uma prisão em Nova York.
Se levarmos em conta que a Segunda Guerra Mundial começou
com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, em 1939, com a mobilização de
forças militares equipadas e numerosas, teremos que reconhecer que a própria
concepção de guerra entre as nações mudou significativamente.
Depois da invasão da Venezuela, da entrada
no Palácio e nos aposentos do presidente do país, foram necessários apenas 47
segundos para tirá-lo e à esposa da cama e algemá-los. Pouco depois eles
estavam num navio em viagem para a Flórida, em seguida num avião para Nova York
e do aeroporto para a prisão, num camburão.
Sociologicamente, nada disso é produto casual da vontade de
um desordeiro. Ou de uma pessoa de conduta claramente anômala.
Já em meados dos anos 1960, o Pentágono encomendou uma
pesquisa a Harold Garfinkel, sociólogo da Universidade da Califórnia, sobre, no
fundo, os mecanismos sociais cotidianos por meio dos quais as pessoas
automaticamente recriam a ordem social que possa ter sido rompida por uma
interferência intencional ou mesmo espontânea. O efeito espontâneo e contrário
das irrupções sociais que começam a se difundir nessa época.
Seu livro “Studies in Ethnomethodology” foi
significativamente publicado em 1967, no período da emergência dos movimentos
sociais. Em especial o movimento estudantil, mas também os das categorias que
fazem reivindicações identitárias, religiosas, etárias, de gênero. Os
diferentes.
Garfinkel introduziu a experimentação na sociologia. Suas
entrevistas presenciais mas anônimas, de entrevistador cuja cara não pode ser
reconhecida, criam insegurança nos entrevistados, que alguns definem como
vítimas. Alvin Gouldner chegou a dizer que o experimento etnometodológico só
funciona quando dói, quando reduz a vítima à certeza de que ela está sozinha e
de que não existem referências para sua conduta. Como faz Trump, as regras
sociais são anuladas na molecagem do desrespeito completo a normas, acordos,
tratados. O experimentador cria estados de anomia. Inconscientemente, a
surpresa do vazio torna o destinatário cúmplice e seu próprio algoz.
Minha suposição é a de que Trump age com base em
pressupostos etnometodológicos mesmo não sendo um profissional da área. Mas tem
o perfil de uma socialização rara que não o faz uma pessoa nem uma identidade.
Ele é um sujeito desidentificado. Por isso, pode se metamorfosear nas
alterações bruscas de decisão. Lula, fruto do neocapitalismo europeu, o
capitalismo de negociação, tornou-se reconhecidamente hábil negociador. É um
decifrador de interlocutores, não os minimiza. Convence-os a julgarem-no frágil
para que com ele negociem em vez de hostilizá-lo.
Aparentemente foi o que aconteceu no encontro casual de Lula
com Trump na ONU. Ele fez com que Trump entendesse que o que poderia ser
interpretado como uma vitória dele, Lula, era de fato, também, vitória de
Trump, o que é próprio de uma relação dialética, de contrários, mas não tanto,
para que a relação sobreviva.
O desconforto do secretário de Estado Marco Rubio em face da
virada de Trump, que anulou a trama antibrasileira dos Bolsonaros, que julgavam
ser influentes na Casa Branca, parece indicar que ele próprio está sujeito às
surpresas desse tipo de compreensão da realidade política.
De outra maneira, o mesmo aconteceu no episódio da
Venezuela. Poucas horas depois do sequestro de Maduro e da esposa, o próprio
Trump anunciava entendimentos com a nova presidente, a vice-presidente
chavista, cuja posse fora determinada pela Suprema Corte do país.
É claro que nesse jogo Trump neutraliza a Carta da ONU, põe
entre parênteses acordos e tratados internacionais, desconstrói sem destruir.
Faz de sua vontade uma vontade compulsória e esvaziadora. E enche o espaço
esvaziado por sua baderna com regras ad hoc, improvisadas sem nexo com o
direito e os tratados. Arvora-se em porta-voz de uma Organização das Nações
Unidas informal e desunidas por ele mesmo.
Trump é expressão e instrumento de uma insurreição anômala,
fora dos marcos de tudo que é a ordem política. Ele é o poder. Com ele, a
América democrática virou uma ameaça aos valores das convenções. De certo modo,
a invasão do Capitólio deu certo.
Ele se tornou concretamente uma ameaça aos valores e
princípios da Carta da ONU, que asseguram a numerosos países o direito à
autodeterminação, a escolher seus caminhos e a resolver internamente seus
próprios problemas.

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