O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, começou 2026
no aquecimento. Deixado no banco pelo técnico Jair Bolsonaro, demonstra ter
ficado descontente com a escalação do time da direita para as eleições e tem
dado corridinhas ao lado do gramado para, se chamado, entrar em campo.
Ainda em novembro, Tarcísio publicou em suas redes o vídeo
de uma fala sua no evento de um grupo privado de educação em que lançou a ideia
de que o Brasil precisava “trocar de CEO” para crescer e aproveitar seu
potencial numa série de áreas que ele listou em alta velocidade, de
terras-raras a energia limpa. Ali, Jair ainda não tinha indicado o filho Flávio
como seu candidato — isso só veio a ocorrer no início de dezembro. Mas o
governador de São Paulo resgatou o vídeo há dois dias, justamente quando uma
pesquisa do Ideia para o canal Meio o apontou como o pré-candidato de direita
mais competitivo para enfrentar Lula.
— A verdade é uma só: o Brasil não aguenta
mais quatro anos de PT. Estamos limitando o nosso potencial como nação, e tirar
esse governo atrasado é o único lado que a direita precisa ter em 2026 —
escreveu, sem nenhuma menção ao nome de Flávio.
A postagem recebeu um comentário da mulher do governador,
Cristiane, lida como incentivo à candidatura do marido.
Por último, outra pesquisa, da Genial/Quaest, mostrou, no
dia seguinte, que caiu a rejeição ao nome de Flávio e o percentual dos
eleitores da direita que acham que Bolsonaro errou ao indicar o filho para seu
lugar. Como a direita e a extrema direita brasileiras não precisam de muito
para se engalfinhar, com esses ingredientes estava armado mais um circo.
Tarcísio passou esta quinta-feira tentando negar o que
parece bastante óbvio: ele está, sim, pondo o pé na água para testar a
temperatura. O texto do vídeo postado e repostado passa ao largo dos problemas
e das realizações de seu governo em São Paulo. É nacional do começo ao fim, com
preocupação explícita de mostrar que ele tem um diagnóstico dos gargalos e das
soluções para o país na ponta da língua.
A linguagem “empresarial” também guarda pouca ou nenhuma
afinidade com a ideia de um clã antissistema voltado às necessidades judiciais
do patriarca, sentido por trás da indicação do filho Zero Um. Ela é dirigida a
um público muito claro: o empresariado e a Faria Lima, justamente os que
ficaram desgostosos com a ideia de Bolsonaro de passar o bastão a um herdeiro
de sangue enquanto segue ocupando o noticiário diariamente em virtude das
vicissitudes médicas e judiciais da pena que cumpre por tentar dar um golpe de
Estado.
Na pesquisa do Ideia, Lula tem 44,4% e Tarcísio 42,1% num
eventual segundo turno, situação de empate técnico. A diferença medida pela
Quaest é um pouco maior, de 5 pontos (44% a 39%), mas também capta o
crescimento do governador paulista mesmo depois de ter sido escanteado pelo
mentor político em prol do filho.
As novas explicações de Tarcísio, tentando se desvencilhar
do chumbo grosso da extrema direita, não encerram a controvérsia, uma vez que
não trazem uma negativa cabal de que vá se candidatar. Como ele tem um
propalado temor de desafiar os desígnios do criador, diferentemente de outras
criaturas políticas que romperam os laços já nos primeiros anos depois de
eleitas, é pouco provável que vá dar o grito de independência a que vem sendo
instado pelos partidos do Centrão e pelos setores da economia que prefeririam
seu nome ao de Flávio.
As postagens, assim como o incentivo “espontâneo” da esposa,
funcionam, nessa tática de aquecimento, mais como aceno ao próprio Bolsonaro. É
como se dissesse:
— Olha, professor, estou aqui à disposição, com fome de
bola.
Para funcionar, no entanto, a tática precisaria que Flávio
se contundisse. Que se enrolasse com a Justiça, começasse a meter os pés pelas
mãos ou a cair nas pesquisas. Tudo isso sempre pode acontecer, levando em conta
o histórico da família, mas não é o que a crônica da partida eleitoral mostra
neste início de 2026.

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