Os EUA sempre devoraram os inimigos para deglutir suas
qualidades e se fortalecerem
O cachorro-quente, o chiclete, o jeans, a lâmpada e o
wi-fi foram só alguns produtos dessa deglutição
Presentearam Donald Trump com
uma tradução do "Manifesto
Antropófago", de Oswald
de Andrade. Ele leu: "Só a antropofagia nos une. Socialmente.
Economicamente. Filosoficamente". Trump gostou. Mais adiante: "Só me
interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago". Trump fez
hmmm de aprovação. Segundo o autor, ao literalmente comer o inimigo, o
antropófago devora as qualidades deste e, deglutindo-as à sua maneira,
fortalece-se.
Trump se empolgou. Se
abocanhasse, digamos, a Venezuela, os EUA poderiam engolir as
fabulosas reservas
de petróleo do país e degluti-las em
gasolina, diesel, querosene, lubrificantes, asfalto, plásticos, pesticidas,
metanol e sabe-se lá. Não por acaso, neste fim de semana, lá
se foi a Venezuela para o papo.
Se não fosse tão ignorante, Trump saberia que os americanos já praticam a
antropofagia há muito tempo. Grande parte da escalada dos EUA no mundo se deu
pela ingestão das boas coisas não só dos inimigos, mas, idem, as dos amigos. E,
como manda o "Manifesto", deglutindo-as, adaptando-as ao seu jeito e
tornando-as criações de sua autoria.
Foi assim com inúmeros produtos que, inventados alhures,
tornaram-se tão americanos que ninguém discute sua origem: o cachorro-quente, o
hambúrguer, o ketchup, o próprio sanduíche, a torta de maçã, o chiclete, o
automóvel, o rádio, o cinema, a televisão, o jeans, a capa de chuva, o colete à
prova de balas, o automóvel, o avião, o pára-quedas, a secretária eletrônica, o
K7, o CD, o DVD, o GPS, o wi-fi. Claro que tudo isso só se difundiu depois
de deglutido
pelos EUA.
O maior antropófago da história pode ter sido o americano Thomas Edison. De
guardanapo no pescoço, ele devorou, deglutiu e comercializou a lâmpada, o
fonógrafo, o raio-X e outras 30 criações alheias. Não que não fosse um grande
inventor. Mas sê-lo-ia sem seu poder de deglutição?
O ladino Trump vibrou e se identificou também com outro curioso trecho do
"Manifesto" oswaldiano: "A idade de ouro anunciada pela América.
A idade de ouro. E todas as girls".

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