Na natureza do trumpismo, a dimensão do espetáculo é mais
determinante do que a dimensão geopolítica, a dimensão econômica e a dimensão
da política interna
A captura – ou rapto, ou sequestro – de Nicolás Maduro pelos
Estados Unidos, na madrugada de sábado, foi amplamente analisada e comentada na
imprensa. Só ficou faltando um pedaço. Além das razões geopolíticas (que levam
a Casa Branca a tentar expulsar as influências russas e chinesas do mar do
Caribe e da América do Sul), além das pressões exercidas sobre o presidente
pela indústria petrolífera norte-americana (que quer beber o óleo extrapesado
das águas venezuelanas) e além da ameaça de perda de popularidade interna (que
o governo imagina conseguir desviar com agressividade bélica em plagas
estrangeiras), há um quarto fator a se levar em conta.
Esse quarto fator é a imagem, a
comunicação, a propaganda no seu sentido mais superlativo. Não se pense que
seja apenas uma questão de modular a fala ou de escolher a melhor mensagem para
o melhor momento. Para o trumpismo, a propaganda açambarca toda a episteme,
mais ou menos como aconteceu com o nazismo. No Terceiro Reich, a massificação
da ideologia constituiu a única forma de conhecer, explicar e moldar o mundo –
na era Trump, a comunicação se realiza como a apoteose performática que reduz o
mundo à lógica do entretenimento. Segundo essa doutrina, existir é aparecer,
não importa a que custo e não importa para quê.
Aparecer implica empalidecer a imagem do outro. Pela chave
do exibicionismo compulsivo, podemos compreender a política de aviltamento
sistemático que o trumpismo dirige contra outras nações e seus representantes
legítimos. Não se trata meramente de um jeito espalhafatoso de ser, mas de um
discurso fechado, compacto e pesado que define o modo de ser. Donald Trump
adestrou-se em seu discurso quando se tornou uma celebridade da televisão como
apresentador do programa The Apprentice.
Mais adiante, aprendiz deslumbrado que sempre foi, elevou
seu estilo discursivo ao patamar de escola para as relações externas. O método
consiste em submeter o interlocutor a rituais sucessivos de humilhação
explícita para quebrarlhe a dignidade, a autoconfiança e a independência.
Adeus, ONU. Adeus, democracia. Adeus, soberania nacional dos outros – e, se a
Otan bobear, adeus também para a Otan.
Foi com base nesse parâmetro que o vice-presidente J. D.
Vance compareceu a uma reunião sobre segurança mundial na Europa, em fevereiro
do ano passado, para anunciar aos seus pares que havia “um novo xerife na
cidade”. Isso na mesma semana em que seu chefe, o assim chamado “xerife”,
deixava claro que preferia negociar com Putin a se entender com os líderes
europeus. Poucos dias depois, Trump, em pessoa, ladeado por Vance, admoestou
com arrogância extrema o presidente ucraniano Volodmir Zelenski, durante uma
reunião no Salão Oval: “Você está brincando com a Terceira Guerra Mundial”. A
partir daí, vieram em cascata demonstrações de prepotência e soberba, como o
bombardeio das instalações nucleares do Irã, em junho – bombardeio, diga-se,
mais cenográfico do que efetivo: mal arranhou o projeto de enriquecimento de
urânio do regime iraniano.
Na natureza do trumpismo, a dimensão do espetáculo é mais
determinante do que a dimensão geopolítica (a vigilância das “áreas de
influência”), a dimensão econômica (representada no caso presente pelas
companhias de petróleo) e a dimensão da política interna (especialmente quando
bate em índices de popularidade). O espetáculo condiciona e determina todo o
resto.
Basta ver que o receituário de Trump, uma forma sistêmica de
loucura, não tem nenhuma compatibilidade com a coerência e com o cultivo do
respeito. Sobre sua incoerência constitutiva, lembremos que ele mandou prender
Maduro porque o acusava de chefiar o narcotráfico. Depois, sem maiores
explicações, retirou a acusação de narcotraficante, mas manteve a prisão.
Lembremos também a patacoada que foi o capítulo das tarifas abusivas contra o
Brasil. No início, a razão seria a defesa de Bolsonaro. Então, Bolsonaro ficou
de escanteio mas a guerra tarifária prosseguiu. O show tem de continuar. Quanto
ao cultivo do respeito, tentemos imaginar um Trump polido, cortês, afável e
adepto do soft power. Esse Trump jamais existirá. Ele é puro bullying
internacional.
O que aconteceu no sábado passado foi furor performático – e
bem ensaiadinho. Teria de ser como foi, com a Força Delta de abre-alas,
secundada por 150 aeronaves, entre bombardeiros, aviões de combate,
helicópteros e drones, como se a política externa fosse a continuação de um
filme de Bruce Willis por outros meios, passando pelos filmes de Tom Cruise,
por certo. Em Trump, o fascismo alcança seu feitio mais avançado de
entretenimento sem caráter e totalizante.
A investida contra Caracas, que fez letra morta do Direito
Internacional, humilhou indistintamente os que apoiam Maduro e os que se opõem
a ele. Os primeiros não tiveram como proteger seu ídolo e se desmoralizaram. Os
segundos ficaram no papel de crianças, jurídica e politicamente incapazes, que
chamam o irmão mais velho para bater no coleguinha. O continente inteiro está
humilhado.
No mais, o Brasil, em ano eleitoral, está na alça de mira.

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