Trump reforça o isolamento dos Estados Unidos. O país
está fora da mesa em que o mundo discute seus grandes dramas
Trump não conseguirá destruir o mundo para cumprir sua
promessa de fazer os Estados Unidos grandes novamente – Make America Great
Again (Maga), seu lema de campanha –, que encantou certos políticos daqui). É o
que esperam bilhões de pessoas que habitam o planeta. Mas Trump está destruindo
as instituições que o mundo conseguiu erigir nas últimas décadas para
estabelecer um complexo de relações e compromissos por meio do qual os países
conseguem debater problemas comuns, encontrar soluções e preservar relações de
convivência entre si, cada um cedendo ou ganhando para ficar em paz com os
demais. Há esperanças de que, em algum tempo, suas decisões sejam revistas por
pessoas mais sensatas que venham a sucedê-lo no cargo. No momento, o mundo
perde.
Na semana passada, o governo de Donald J.
Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos de 66 organismos internacionais,
dos quais 31 são vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU). “O
presidente Trump está encerrando a participação dos Estados Unidos em
organizações internacionais que minam a independência dos Estados Unidos e
desperdiçam o dinheiro dos contribuintes em agendas ineficazes ou hostis”,
segundo nota divulgada pela Casa Branca na quarta-feira passada. “Muitos desses
órgãos promovem políticas climáticas radicais, governança global e programas
ideológicos em conflito com a soberania e a força econômica do país.” Trump –
que não hesita em invadir outros países quando isso lhe interessa – manda um
recado para o resto do mundo: “Aqui não”.
Trata-se de mais uma ação, talvez a mais exuberante de todas
do governo Trump até o momento, de isolar os Estados Unidos do convívio
harmônico e negociado com os demais países. O objetivo é impedir que decisões
da Casa Branca sejam examinadas em instâncias internacionais, mesmo que afetem
a todo o mundo . Espertamente , Trump não retirou os Estados Unidos da ONU. Lá,
seu país tem imensa influência, pois, como um dos cinco membros permanentes do
Conselho de Segurança (os outros quatro são Reino Unido, França, Rússia e
China), tem poder de veto sobre as decisões mais importantes do órgão colegiado
mundial que simboliza as instituições que o mundo construiu logo depois do fim
da 2.ª Guerra Mundial.
Das instituições que propiciaram a convivência entre os
países e sua cooperação em assuntos de interesse global, Trump já tinha
retirado os Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS). E fez isso
justamente no período da pandemia da covid-19. Além disso, tratou de
enfraquecer a Organização Mundial do Comércio (OMC), cujo poder de atuação já
vinha sendo boicotado pelos Estados Unidos desde o governo do democrata Barack
Obama, que não nomeou o representante dos Estados Unidos para o órgão mais poderoso
da organização, paralisando suas decisões mais importantes.
Agora, Trump retirou seu país de organizações que tratam de
questões climáticas, direitos humanos e questões trabalhistas, entre outros
temas. Decisão de grande impacto mundial é a de tirar os Estados Unidos da
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla
em inglês) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
“Enquanto todas as outras nações avançam juntas, esse novo retrocesso em
relação à liderança global, à cooperação climática e à ciência só pode prejudicar
a economia, os empregos e o padrão de vida dos Estados Unidos, à medida que
incêndios florestais, enchentes, megatempestades e secas pioram rapidamente”,
disse em nota o secretário-executivo da UNFCC, Simon Stiell. “É um gol contra
colossal que deixará os Estados Unidos menos seguros e menos prósperos.”
O retrocesso não se resume à questão ambiental e às mudanças
climáticas, cuja discussão ficará privada da participação de um dos principais,
se não o principal, agente dessas mudanças. “É um retrocesso sistêmico de todos
os temas em que houve uma evolução positiva da consciência moral nas últimas
décadas”, resumiu, em entrevista ao jornal Valor Econômico, o embaixador e
ex-ministro do Meio Ambiente Rubens Ricupero, que, mesmo aposentado, continua
sendo um dos diplomatas mais respeitados do País.
Citando temas como direitos humanos, meio ambiente,
igualdade de gênero e de raça entre os focos das instituições das quais os
Estados Unidos se retiraram, Ricupero resume: “(São) todas causas que se
consideravam irreversíveis no processo de consciência da humanidade”.
Além do risco de o mundo ficar menos amigável para seus
habitantes por causa da saída da maior economia do planeta das grandes
discussões sobre o futuro da humanidade, a decisão de Trump reforça o
isolamento dos Estados Unidos. O país está fora da mesa em que o mundo discute
seus grandes dramas. Mas, para eleitores americanos (e políticos brasileiros)
que se iludem com o Maga, Trump reforça o poder dos Estados Unidos de decidir
sobre seu próprio destino, sem interferência externa. Assim, o mundo fica ainda
pior e com o futuro ainda mais incerto.

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