Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de
médio e longo prazo
O Brasil enfrenta uma situação interna de extrema
complexidade. A disfuncionalidade do sistema político afeta a governança e o
equilíbrio entre os Três Poderes. Não haverá saída e recuperação sem medidas
estruturais de médio e longo prazo. O programa mínimo que a seriedade da crise
atual exige é passar o Brasil a limpo e mudar o que tem de ser mudado dentro
dos princípios democráticos.
Não se pode ignorar que tudo o que ocorre hoje é resultado
de 20 anos de governos de esquerda e de direita que, pelas suas prioridades
ideológicas, não levaram em conta as mudanças internas e as transformações
globais e seus impactos sobre o País. A ausência de liderança no Executivo, no
Legislativo, no Judiciário, no meio empresarial e no meio dos trabalhadores
agrava o quadro nacional e exige de todos os que se preocupam com o futuro do
Brasil um esforço para promover um debate sobre as mudanças que a sociedade
brasileira terá de enfrentar para restaurar o crescimento em nível mais
elevado, aumentar o emprego de forma sustentável, combater a corrupção
sistêmica e a violência do crime organizado.
A convergência das crises política,
econômica e ética está criando uma grave ameaça para o País a médio e longo
prazo. A instabilidade política, a econômica e a insegurança jurídica estão
marginalizando o Brasil como destino de investimentos produtivos e
tecnologicamente avançados.
O cenário global e regional mudou sem que o governo tenha se
ajustado para melhor defender os interesses do País. A ascensão da direita na
região e a agressão à Venezuela alteraram a geopolítica na América do Sul, na
prática, uma zona de influência dos EUA, com grande desafio para o Brasil.
Chegou o momento de enfrentar os problemas que, de fato,
afetam a sociedade brasileira. Governo, empresários e trabalhadores, como
parceiros junto aos agentes políticos, em momentos cruciais no passado,
souberam superar suas diferenças e atuar em conjunto em favor do crescimento e
do emprego. Não resta alternativa senão confrontar essa ameaça para evitar uma
crise mais profunda e a ampliação da divisão interna.
O preço do imobilismo será maior do que o custo das mudanças
necessárias para restabelecer as condições de governabilidade do País. A
divisão interna na sociedade e a polarização política dos últimos anos tornam
difícil a discussão de uma agenda mínima. Pensando no Brasil em primeiro lugar,
os que defendem uma posição equidistante dos radicalismos ideológicos da
esquerda e da direita têm uma palavra a oferecer no cenário político nacional.
Essa manifestação deveria ocorrer no contexto de um movimento que, nesse quadro
de incertezas e grandes riscos, faça a defesa do interesse nacional com a
discussão de uma agenda que examine medidas difíceis, mas necessárias, como
parte de um programa de governo.
Para tanto, os debates na próxima eleição presidencial
deveriam focalizar planos de governo com o objetivo de definir um projeto
nacional de médio e longo prazo. Nos primeiros cem dias, os candidatos deveriam
comprometer-se a apresentar e discutir um programa que incluiria medidas para
equilibrar a economia, reformas estruturais, como a política, a administrativa
e a tributária. Reformas microeconômicas, como a simplificação e a
desburocratização dos procedimentos com que os cidadãos têm de se relacionar com
o Estado, devem voltar a ser prioridade. Uma nova política para tornar a
educação um fator estratégico no contexto da projeção externa do Brasil e uma
política firme contra a corrupção e o crime organizado deveriam ser discutidas.
O desequilíbrio econômico, o crescimento do déficit público e o gigantismo do
Estado impõem a prioridade conjuntural do ajuste fiscal. Reduzir o
desequilíbrio social deve continuar a ser prioridade, sem afetar a oferta de
mão de obra para a indústria e a agricultura.
A eleição de outubro oferece a oportunidade para superar a
divisão ideológica e abrir espaço para a discussão de uma estratégia de curto,
médio e longo prazo que possa unir o País em função dos verdadeiros interesses
nacionais. Recente pesquisa de opinião pública mostrou que 65% dos que votaram
em Lula ou Bolsonaro em 2022 preferem outros nomes na próxima eleição
presidencial e 40% compõem o centro democrático. A independência dos extremos,
com a emergência de uma posição moderada centrista com uma visão clara dos
problemas internos e do lugar do Brasil no mundo deveria ser buscada por todos
os que não se conformam com a atual situação. Não é mais possível aceitar
passivamente uma situação insustentável. A mobilização pela busca de uma
candidatura que não esteja vinculada a nenhum dos polos radicais é urgente.
Todos os que preferem uma alternativa à polarização e à radicalização devem
apoiar a busca de um nome com um programa de governo de médio e longo prazo com
respostas de como enfrentar os desafios internos e externos. Muitos poderão
achar ingenuidade ou wishful thinking e talvez seja mesmo
muito difícil encontrar esse nome, mas, pensando no futuro de nossos filhos e
do Brasil, vale a pena tentar.
Procura-se um candidato longe dos extremos ideológicos, que
possa apresentar um projeto de nação, discutir um programa de governo e se
comprometer a executá-lo com competência e honestidade.

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