Presidente americano prefere se acertar com chavistas a
entregar poder à oposição venezuelana
Precedentes do Iraque e da Líbia fazem com que ele relute
em alijar quem controla polícia e exército
Donald Trump é
um caso a ser estudado por cientistas políticos, psicólogos e neurologistas.
Representante máximo da extrema direita planetária, ele próprio apresenta pouco
ou nenhum apego a cartilhas ideológicas. Faz o que acha que lhe renderá
dividendos. Se suas ações estiverem em consonância com as posições da direita,
tanto melhor, já que arrancará mais facilmente os aplausos de sua base.
Mas ele também sabe que seus apoiadores lhe
perdoam quase tudo, o que lhe dá espaço para, de vez em quando, ignorar ou
contrariar convicções arraigadas de seu campo político.
Ele está fazendo isso na Venezuela.
Abandonou María
Corina Machado e a oposição à própria sorte e se acertou com
representantes do regime bolivariano para que continuem administrando o país,
desde que de acordo com os interesses de Washington. É a continuidade do
chavismo e talvez até da ditadura, mas
sem Nicolás
Maduro. Trumpistas americanos talvez não se incomodem com o arranjo, mas a
direita latino-americana deve estar se sentindo traída.
Curiosamente, essa foi a menos imprudente das decisões de
Trump. O risco maior de intervenções externas em ditaduras é precipitar o país
numa guerra civil. O fracasso das intervenções no Iraque e
na Líbia foi
imediatamente lembrado por analistas. O acerto com os chavistas reduz ao menos
por ora esse perigo. Isso significa que não haverá redemocratização na
Venezuela? Difícil dizer. O que dá para afirmar é que Trump, ao contrário de
presidentes liberais, não tem fetiche por democracias, mas até ele deve
reconhecer que estas tendem a ser mais estáveis do que regimes impostos.
Os precedentes do Iraque e da Líbia são um alerta, mas não
destino. Instituições têm memória. É mais fácil fazer com que um país que já
foi democrático volte a sê-lo do que tentar implantar esse tipo de regime onde
ele nunca existiu. E, nos anos 1960, 1970 e 1980, enquanto a maioria dos países
da América
do Sul passava por ditaduras, a Venezuela permanecia teimosamente
democrática. Isso faz diferença.

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