Livre dos holofotes que cercam o STF, tribunal costuma
ser leniente com nepotismo processual, pagamento de supersalários e atuação de
lobistas
Ao ser avisado da primeira acusação de importunação sexual
contra Marco Buzzi, o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Herman
Benjamin, desabafou com um amigo: “Era só o que nos faltava”. O ministro se
referia à série de problemas que atinge a imagem da Corte desde que ele tomou
posse, em agosto de 2024.
Com dois meses de gestão, Benjamin teve que dar explicações
sobre suspeitas de venda de sentenças no STJ. Em seguida, a Polícia Federal fez
buscas nas casas de servidores que atuaram em três gabinetes do tribunal.
Ao autorizar a operação, o ministro
Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, relatou a existência de um
“verdadeiro comércio de decisões judiciais no STJ”. Em entrevista, Benjamin
admitiu um “constrangimento coletivo”. “Nosso sentimento é de profunda
tristeza”, afirmou o presidente, que apoia a criação de um código de ética para
a elite do Judiciário.
Até aqui, não há registro de participação de ministros no
esquema na mira da PF. Mas o fato de o caso seguir nas mãos de Zanin mantém uma
nuvem carregada sobre o STJ, cujos integrantes têm foro privilegiado no
Supremo.
As acusações contra Buzzi criaram novos embaraços para o
tribunal. Na semana passada, a Corte abriu sindicância, mas não impôs medidas
disciplinares ao ministro. A situação se agravou com o surgimento do segundo
relato de assédio, feito por uma ex-assessora. O escândalo, que havia começado
numa praia catarinense, instalou-se na sede do STJ.
Ontem Buzzi pediu licença médica de 90 dias. O atestado foi visto por colegas como manobra protelatória, e ele foi afastado do cargo por unanimidade. Em nota, sua defesa afirmou que a decisão criou um “arriscado precedente”. Apostou no espírito de corpo que costuma proteger os togados em Brasília.
Livres dos holofotes que cercam o Supremo, os 33 ministros do STJ não estão habituados ao escrutínio público. Isso ajuda a explicar a antiga leniência com vícios como o nepotismo processual, o pagamento de supersalários e a atuação de lobistas. São muitos problemas para uma Corte que gosta de se apresentar como o “tribunal da cidadania”.

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