Assim como fez o Banco Central, as instituições
envolvidas deveriam rever procedimentos para verificar se houve falhas
No dia seguinte à decisão do Copom, de manter juros no
elevadíssimo nível de 15%, e avisar que a taxa cairá na próxima reunião, o
Banco Central estava nas manchetes dos jornais. O assunto, contudo, não era a
Selic. Era a auditoria interna feita para averiguar os procedimentos no caso da
liquidação do Banco Master. Na mesma quinta-feira, o ministro Dias Toffoli
soltou uma nota tentando se explicar e sinalizando que pode devolver o assunto
à primeira instância.
No mercado bancário, o Master era um S3. Em
palavras: um banco pequeno. Por que então a República está abalada? Há muitas
respostas para a pergunta, e uma delas todos sabem: as muitas conexões
políticas e jurídicas de Daniel Vorcaro que, se não conseguiram impedir que ele
usasse tornozeleira, têm provocado uma sucessão de sustos e dúvidas
institucionais.
A nota de Toffoli omite alguns eventos. Não registra, por
exemplo, que ele chegou a determinar uma descabida acareação entre diretor do
Banco Central e dois investigados, antes ainda de ouvir os suspeitos. A
inversão da ordem causou tanta estranheza e provocou tantas críticas, que o
ministro relator trocou acareação por depoimento do diretor de fiscalização do
BC, Ailton de Aquino. Recuou, mas nunca admitiu o recuo. Fez de conta que não
havia falado em acareação.
O diretor Ailton de Aquino, aliás, diante da primeira dúvida
sobre ele, tomou a iniciativa de colocar à disposição dos investigadores da
Polícia Federal seus sigilos fiscal, bancário e telemático. Não se vê a mesma
atitude do ministro. A empresa dos irmãos de Toffoli, chamada Maridt, com sede
na casa de uma cunhada dele — que desconhece o empreendimento que sedia —
deveria divulgar informações sobre seu balanço, de quem recebe e a quem paga.
A notícia de que o Banco Central havia aberto uma auditoria
interna, por decisão do presidente da instituição, foi dada primeiro no GLOBO,
por Thiago Bronzatto e Fabio Graner. Esta deveria ser uma atitude de todos os
órgãos, instituições e empresas envolvidas no episódio: revisar seus atos e
decisões. Todos precisam rever procedimentos para saber onde houve falhas. No
âmbito do Banco Central, rever a governança, os pareceres, estudar os passos da
fiscalização e da supervisão bancária ajudará a evitar que uma situação como
esta se repita. Não há qualquer tipo de acusação, a auditoria não foi iniciada
por suspeição, mas porque é necessária. É difícil, produz tensão interna, há
quem tema que se um pequeno erro for encontrado seja o suficiente para que as
defesas queiram a nulidade do processo. Mas a luz do sol sempre foi o melhor
remédio contra qualquer dúvida.
O país está num momento de desconfiança em relação às
instituições. Por isso, o melhor é ter o máximo de transparência e evitar a
tendência ao corporativismo. Criticar o comportamento do ministro Jhonatan de
Jesus não é atacar o TCU. Ter dúvidas sobre a conveniência de Dias Toffoli
permanecer na relatoria do caso Master não é atacar o Supremo Tribunal Federal.
Quem tenta blindá-los presta um desserviço à democracia. Ela precisa da
confiança nas instituições.
Tem havido muitos erros e eles precisam ser encarados.
Inclusive no setor privado. A Fitch, uma das maiores agências de risco do
mundo, deu upgrade ao Master em outubro de 2024. Ele passou a “A-”. Uma nota
excelente que indica baixo risco. Naquela altura não era segredo para ninguém a
crise de liquidez da instituição, nem se desconhecia a baixa qualidade dos
ativos. Em setembro de 2025, a Fitch rebaixou a nota para “BB”, uma nota
mediana. E dois meses depois, após a liquidação do banco, rebaixou para “D”. Em
um ano saiu do patamar que representa baixo risco, para a nota que indica
falência.
O BRB tinha a obrigação de auditar o que estava comprando,
realizando uma diligência para verificar se a carteira de fato existia.
Evidentemente que a culpa não é do Banco Central. Tudo indica que os ativos
foram comprados para fazer transfusão de sangue para o Master. Até março, o BRB
tem que entregar seu balanço de 2025 e dizer quanto fará de provisão — o BC
mandou R$ 2, 6 bilhões — e como vai resolver o rombo total que, segundo o
diretor Ailton Aquino no depoimento, pode chegar a R$ 5 bilhões.
O melhor no intrincado caso Master é o caminho da análise
dos procedimentos e condutas nas instituições públicas e no setor privado. Como
está fazendo o Banco Central.

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