Sem medo de ser governista, Acadêmicos de Niterói exalta
Lula e leva hino do PT à Sapucaí
A oito meses da eleição presidencial, Sambódromo será
palco de desfile chapa-branca
Aconteceu há 12 dias, em solenidade no Rio Grande do Sul. De
macacão laranja, o presidente da estatal Transpetro usou o púlpito para exaltar
o governo e fazer campanha pela reeleição. “Mesmo diante das ameaças externas,
estamos mais fortes”, discursou, dirigindo-se a Lula.
Em clima de comício, Sérgio Bacci arengou a claque e
provocou a oposição. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso
voltem a comandar este país”, disse. Em seguida, passou a recitar “um pedacinho
do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”.
“Nosso sobrenome é Brasil da Silva/ Vale
uma nação, vale um grande enredo/ No Brasil, o amor venceu o medo”, cantarolou,
antes de pedir vivas ao presidente que disputará o quarto mandato em outubro.
O carnaval ainda não chegou, mas o desfile da Acadêmicos de
Niterói já dá o que falar. Recém-promovida ao Grupo Especial, a escola cruzará
a Avenida com um samba chapa-branca. A letra glorifica a trajetória de Lula,
“da luta sindical à liderança mundial”. Sem sutileza, cita duas vezes o 13,
número de urna do PT.
Enredos governistas não são novidade no carnaval carioca.
Turbinadas com dinheiro público, as escolas já serviram à propaganda de
prefeitos, governadores e generais. Em 1975, a Beija-Flor bajulou a ditadura
com um enredo que cantava as maravilhas do Funrural e do PIS-Pasep. Neste ano,
a Mangueira embolsará R$ 10 milhões para se apresentar como “Estação Primeira
do Amapá”.
A indústria do samba-exaltação também aceita petrodólares do
exterior. Em 2006, a estatal venezuelana PDVSA patrocinou um desfile da Vila
Isabel que exaltava a “revolução bolivariana” de Hugo Chávez. Nove anos depois,
a Beija-Flor recebeu uma bolada do ditador Teodoro Obiang para enaltecer a
pequena Guiné Equatorial.
Apesar desse histórico, o samba da Niterói tem tons de
ineditismo. Pela primeira vez, uma escola do Grupo Especial exaltará um
presidente no cargo e prestes a disputar a reeleição. O homenageado parece
satisfeito. Já recebeu os dirigentes da Niterói e foi representado pela
primeira-dama em visita à Cidade do Samba. O casal é aguardado na Sapucaí no
domingo de carnaval. Na última sexta, deputados petistas aproveitaram o ensaio
técnico da escola para produzir vídeos para as redes sociais.
A festa do Sambódromo é uma das maiores expressões da
cultura brasileira. Não deveria ser capturada pelo proselitismo político —
muito menos às custas do contribuinte. Neste ano, a agremiação que exaltará
Lula recebeu R$ 6,5 milhões das prefeituras do Rio e de Niterói. O governo
federal repassou mais R$ 1 milhão, mesma verba destinada às concorrentes, via
Ministério da Cultura e Embratur.
A pretexto de evitar multas da Justiça Eleitoral, a escola
orientou os componentes a não fazerem o L com os dedos. Nem precisava. Sem medo
de ser governista, o samba exalta o presidente (“Vi a esperança crescer/ e o
povo seguir sua voz”), debocha da prisão de Bolsonaro (“Sem falsos mitos/ sem
anistia”) e martela o hino dos comícios do PT (“Olê, olê, olê, olá/ Lula,
Lula”).

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