Canadá e Brasil mostram papel dos países de poder médio
na crise da ordem internacional
Lula anuncia suave mudança na estratégia de privilegiar
coalizões Sul-Sul
Dois importantes pronunciamentos passaram batido pelo
noticiário da imprensa nacional, submersa nos infindáveis desdobramentos
do Banco
Master e na descrição de cada movimento do xadrez da eleição
presidencial. Em 20 de janeiro, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney,
discursou em Davos,
no Fórum Econômico Mundial. Oito dias depois, foi a vez de Lula falar na
abertura do Fórum
Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, no Panamá.
Ambos trataram dos desafios implicados na desordem mundial produzida pela
desenfreada prepotência de Donald Trump.
Carney foi taxativo: o mundo não está
passando por uma transição, mas por uma ruptura da ordem internacional. A
grande potência não se considera sujeita a qualquer restrição imposta por
regras previamente acordadas.
Segundo ele, essa não é uma crise resultante da globalização
em si, mas do fato de que os EUA "começaram a usar a integração econômica
como arma, as tarifas como alavancas de poder, a infraestrutura financeira como
coerção e as cadeias de suprimento como vulnerabilidades a serem
exploradas". Ou seja, a Casa Branca trumpista exacerbou o uso da
infraestrutura da globalização como instrumento de poder e agressão, tendência
já observada pelos cientistas políticos norte-americanos Henry Farrell e Abraham
Newman no livro "Underground empire: How America weaponized the world economy"
(o império subterrâneo: como a América instrumentalizou a economia mundial),
ainda sem edição em português.
Tendo enumerado as medidas que o Canadá estava
tomando para aumentar sua autonomia estratégica, o primeiro-ministro reconheceu
os limites e perigos da empreitada: "Um mundo de fortalezas será mais
pobre, mais frágil e menos sustentável". Terminou depositando na atuação
conjunta das chamadas potências médias, entre as quais incluiu seu próprio país
—e poderíamos inscrever o nosso—, a esperança de deter o uso da força bruta e
os efeitos da crua rivalidade entre as grandes potências, de forma a construir
um mundo mais cooperativo e resiliente.
De certa forma, o discurso do presidente Lula seguiu o mesmo
diapasão. Depois de listar as ações que tornariam o país menos vulnerável às
incertezas internacionais, enfatizou a necessidade de buscar o que possa
lastrear uma ação regional concertada e de estabelecer parcerias positivas
dentro e fora da região. Falou no respeito à pluralidade de opções e na
superação das divergências ideológicas.
Palavras são palavras; arriscam perder-se com o tempo. Mas,
neste caso, parecem anunciar uma suave mudança na estratégia internacional do
governo, que tem privilegiado as coalizões Sul-Sul, no plano global, e as
relações com países ideologicamente próximos, no âmbito regional. O esforço por
concluir o acordo Mercosul-União
Europeia e os acenos a recém-eleitos presidentes de direita no Chile e
na Bolívia são outros indícios da correção de rumos. Atestam o senso político
do governo e o entranhado pragmatismo de nossa política externa.
O discurso de Mark Carney indica que entendimentos com
democracias do norte, na defesa de regras civilizadas de convívio
internacional, são também possíveis.

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