O deputado mandou e desmandou na engenharia das emendas,
organizou, arbitrou conflitos e fez da Presidência da Câmara um contrapoder que
rivalizou com Planalto
O deputado Arthur Lira (PP-AL), considerado ainda o
parlamentar mais poderoso da Câmara, atrás apenas de Hugo Motta, o atual
presidente da Casa, que ungiu ao cargo, começa a viver uma espécie de “inferno
astral” semelhante à de outros antecessores. Para quem já mandou e desmandou na
distribuição de emendas parlamentares, é no mínimo constrangedor ser acareado
pela Polícia Federal (PF) com o deputado José Rocha (União Brasil-BA), que o
acusa de manipular emendas de comissão em benefício próprio.
A acareação pode virar uma enorme dor de
cabeça para Lira, por causa da Operação Transparência, que teve como alvo a
ex-assessora da Presidência da Câmara Mariangela Fialek, conhecida como Tuca.
Na ocasião, agentes da PF cumpriram mandados de busca e apreensão no antigo
gabinete da servidora e em sua residência, recolhendo celulares, computador e
anotações. O material apreendido está em análise. Ela foi apontada por Rocha
como a responsável operacional pela distribuição de emendas por ordem de Lira.
A vida depois do poder raramente é gentil com ex-presidentes
da Câmara dos Deputados. A cadeira concentra prerrogativas decisivas – controle
da pauta, mediação entre Executivo e Legislativo, distribuição de cargos e,
sobretudo, influência sobre o Orçamento –, mas esse poder se transformar
rapidamente em retrato na parede. É desse lugar ambíguo que Arthur Lira começa
a experimentar seu próprio “efeito Orloff”, assim como já aconteceu com alguns
de seus antecessores. Dois deles, cujos mandatos sobreviveram até agora, hoje
estão na planície e não têm nenhum poder de influência nas decisões da Casa:
Aécio Neves (PSDB-MG) e Arlindo Chinaglia (PT).
Outros passaram por situação muito pior, como os deputados
Severino Cavalcanti (PP-PE), que renunciou ao cargo por causa do escândalo do
“Mensalinho”, em 2005, e Eduardo Cunha (MDB-RJ), que também renunciou ao cargo,
em janeiro de 2016, depois de dois meses de afastamento no bojo da Operação
Lava-Jato. Mesmo assim, teve seu mandato cassado, no dia 12 de setembro de
2016, pelo plenário da Câmara dos Deputados, por 450 votos a favor, 10
contrários e 9 abstenções, em virtude de quebra de decoro parlamentar, considerando
que o ex-deputado teria mentido à CPI da Petrobras ao negar, durante depoimento
em março de 2015, ser titular de contas bancárias na Suíça.
Durante quatro anos, Lira foi o centro de gravidade da
política parlamentar. Mandou e desmandou na engenharia das emendas, organizou
maiorias, arbitrou conflitos e fez da Presidência da Câmara um contrapoder que
rivalizou com o Planalto. Ao ungir Hugo Motta para sucedê-lo, tentou prolongar
a influência além do mandato. Mas o tempo político tem dinâmica própria; fora
do comando da Casa, o poder se dissipa com rapidez surpreendente.
O constrangimento simbólico da Operação Transparência está
na decisão que autoriza a Polícia Federal a colocar Lira frente a frente com o
deputado José Rocha, no âmbito da investigação sobre a destinação de emendas do
antigo orçamento secreto, a cargo do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Flávio Dino. Para quem sempre defendeu a centralidade do Parlamento na alocação
de recursos, a acareação é uma inversão de papéis. A condição de investigado
devolve o parlamentar à planície institucional.
O ciclo mudou
O ministro Flávio Dino recolocou o tema das emendas no
centro do debate constitucional. Nesta semana, autorizou os deputados Dr.
Flávio (PL-RJ) e Missionário José Olímpio (PL-SP), a redefinir a destinação de
recursos apresentados por parlamentares afastados ou sem presença
institucional, como no caso dos ex-deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e
Alexandre Ramagem (PL-RJ), respectivamente, ambos residindo nos Estados Unidos.
Ambos perderam seus mandatos, o primeiro por se ausentar da Casa, o segundo por
ter sido condenado no julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro. Mesmo
assim, suas emendas ao Orçamento haviam sido aprovadas.
É nesse ambiente que o “inferno astral” de Lira ganha
densidade política. A investigação aponta a ex-assessora como peça operacional
do esquema de desvio de verbas provenientes de emendas do chamado “orçamento
secreto”. O orçamento secreto, proibido pelo STF, era a engrenagem que permitia
ao presidente da Câmara funcionar como distribuidor de poder territorial.
A história recente mostra mesmo que o destino dos ex-presidentes da Câmara costuma ser ingrato. A exceção foi Michel Temer (MDB-SP), que presidiu a Câmara, foi vice-presidente e assumiu a Presidência com o impeachment de Dilma Rousseff(PT). Lira ainda dispõe de capital político, articulação e mandato. Mas a acareação, as investigações e o novo ambiente institucional indicam que o ciclo mudou.
O “Efeito Orloff” é uma expressão popular no Brasil, derivada de um comercial de vodca dos anos 80 com o slogan “eu sou você amanhã”. A expressão já foi muito usada por economistas, para descrever a tendência de o Brasil repetir, com certo atraso, crises econômicas ou políticas vivenciadas por outros países, tradicionalmente a Argentina, sugerindo que “o que aconteceu com eles, acontecerá conosco”. A campanha publicitária da vodca Orloff mostrava um homem conversando com sua versão do futuro, bem-disposto por não ter tido ressaca.

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