Thiago Amparo, Folha de S. Paulo
Erro de grafia no quadro escolar foi protagonizado por
monitor do modelo cívico-militar
Ensino cívico-militar apenas ensina alunos a respeitar
autoridade sem questioná-la
Nesta semana, alunos
de uma escola estadual de Caçapava, no interior de São Paulo,
aprenderam, além de comandos militares, a escrever errado as palavras
"descansar" e "continência" —na lousa, viam
"descançar" e "continêcia".
O erro de grafia no quadro escolar, capturado em vídeo, foi
protagonizado por um dos monitores
do modelo cívico-militar, no primeiro dia de implementação do programa. Nem
os comandos militares, nem os erros de grafia caem no Enem, há de ser
registrado.
A resposta da pasta estadual de Educação diante
do vexame foi pior que o episódio em si. Para a secretaria estadual, os
monitores não atuarão em sala de aula, mas, sim, no reforço da disciplina, do
respeito e dos valores cívicos. Ou seja, o governo Tarcísio
de Freitas (Republicanos) retira 208 policiais militares da
aposentadoria e paga uma bolsa-PM de R$ 301,70 por dia para que estes, entre
outras coisas, controlem o corte de cabelo dos alunos, fiscalizem seus
uniformes, os organizem em filas e os façam cantar o Hino Nacional.
Parte dos familiares é a favor das escolas cívico-militares.
A razão, em geral, é a disciplina escolar. Mas é importante separar o joio do
trigo.
Professores tampouco são a favor de um ambiente escolar em
que a desordem impere. Mas coisa bem diferente é gastar R$ 17 milhões ao ano
para que militares, em geral sem educação superior, executem funções para as
quais não têm formação. Tarcísio precisa explicar aos pais de alunos mais
pobres por que prefere gastar R$ 17 milhões com militares do que com o futuro
de seus filhos.
Com você, a Escola Militar Brasileira.
— Andrei Kampff (@AndreiKampff) February 3, 2026
“descançar”, “continêcia”… e posição de sentido ! pic.twitter.com/PxoUs6tdyL
O ensino cívico-militar serve apenas para amedrontar alunos
e ensiná-los a respeitar autoridade sem questioná-la, habilidade esta útil
apenas para formar a mão de obra barata de ditaduras.
Se, como os liberais, o leitor crê que o alvo da educação é
formar os melhores profissionais para o mercado, deve pensar que o foco precisa
estar na inovação e na excelência individual, não na subserviência. E se, como
os progressistas, vê a educação como caminho para a liberdade, sabe que aquilo
que liberta as pessoas é o pensamento crítico, não um cassetete sobre suas
cabeças.

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