Por que o Brasil está preso numa armadilha da corrupção
sistêmica?
Resposta está nos microfundamentos; explicações
culturalistas não dão conta do fenômeno
"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente
que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da
República, se alicerça no crime. Que acha você?".
A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato
de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima
Barreto. A questão da corrupção sistêmica
no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no
entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação
superficial, culturalista (herança lusitana).
Se todos acreditam que a corrupção é a
regra do jogo, ficamos presos a uma armadilha clássica. Se, ao contrário,
prevalece a crença de que transações honestas são a norma, obedecer à lei
torna-se a estratégia dominante. Quando práticas escusas são percebidas como
regra, o ator que decide jogar limpo tende a ser o perdedor —e, no limite, não
sobrevive. O incentivo, nessa situação, é jogar sujo, apostando que os demais
farão o mesmo.
Se um cidadão ou empresário paga propina a um agente público
—seja um fiscal, seja um parlamentar— esperando que a oferta seja aceita, o
sistema se mantém em equilíbrio. A punição ocasional de alguns transgressores
pode produzir mudanças parciais —em um setor, um ministério ou uma prefeitura.
Mas, na ausência de um efeito manada, isto é, de um ponto de inflexão capaz de
alterar expectativas de forma radical, o equilíbrio global tende a ser restaurado.
As evidências empíricas que sustentam a tese de que "a
corrupção corrompe" (Shaul Shalvi) são numerosas e consistentes. Dados do
Lapop/Vanderbilt mostram forte correlação entre a crença de que "a
corrupção é generalizada" e a probabilidade de se considerar que
"pagar propina é justificável". Daniel Gingerich e coautores
demonstraram que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção em um
país elevou em 28% a propensão a pagar propina, em comparação
com um grupo de controle não exposto a essa informação.
Não são "pecadillos" individuais que produzem a
corrupção sistêmica. A causalidade opera no sentido oposto: a corrupção
corrompe. Gächter e Schulz, em artigo publicado na Nature, encontram
evidências, com base em uma amostra de 23 países, do impacto da grande
corrupção sobre a pequena. Participantes oriundos de países com altos escores
no Índice de Prevalência de Violação de Regras (PRV) —medida que captura grande
corrupção, fraude política e evasão tributária— apresentaram maior propensão a se engajar em atos corruptos em
experimentos de laboratório.
Fisman e Miguel, por sua vez, examinaram milhares de multas
de estacionamento cometidas por funcionários de missões diplomáticas em Nova
York —que gozavam de imunidade até 2002— e encontraram forte correlação entre
estacionamento ilegal e indicadores de corrupção nos países de origem dos
diplomatas. Mesmo na ausência de qualquer punição, as normas sociais forjadas nos países de origem mostraram-se
determinantes.
A lição a extrair para o Brasil é clara: é a grande
corrupção que molda nossa sociabilidade e estimula as microtransgressões —não o
contrário. "Se aqueles no andar de cima fazem, por que eu não posso
fazer?" deixa de ser apenas uma pergunta retórica e passa a funcionar como
máxima orientadora do comportamento social.

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