O país tem gente qualificada, experiências testadas e
instituições capazes de induzir desenvolvimento
O Brasil não sofre por falta de ideias nem por ausência de
experiências bem-sucedidas. O problema é a dificuldade de transformar o que já
funciona em agenda pública estruturada, contínua e com visão de Estado. Falta
conexão — entre políticas, territórios, quem faz e quem decide — e sobra
dependência de ciclos políticos curtos.
Nas últimas semanas, dialoguei com instituições e
territórios que ajudam a compreender esse impasse. Mais que registrar boas
práticas, esses encontros buscam renovar o repertório da agenda pública. Nosso
papel é levar elementos concretos para provocar novas leituras e construir
práticas mais eficientes, capazes de gerar impacto real.
Faço esse diálogo sem veto ideológico. Não converso com
gestores a partir de bandeiras eleitorais, mas como quadros eleitos que
administram recursos públicos. Gestores são transitórios; a agenda precisa ser
permanente.
No Banco do Nordeste, em conversa com seu
presidente, Wagner Antônio de Alencar Rocha, tratamos de economia criativa,
inovação e governança local a partir de um ativo central: o maior programa de
crédito popular do país. O Crediamigo acumulou uma inteligência territorial
rara no sistema financeiro brasileiro. Com o Crediamigo Comunidades, o
território passa a ser unidade estratégica. O desafio é articular crédito,
inovação, cultura e desenvolvimento no mesmo lugar, ampliando resultados.
Na Sudene, com Francisco Ferreira Alexandre e Heitor Freire,
a conversa abordou o papel do Nordeste num cenário global em transformação. O
acordo entre União Europeia e Mercosul reposiciona ativos estratégicos da
região. O Brasil concentra cerca de 40% da infraestrutura de data centers da
América Latina, com destaque para o Ceará. Nesse contexto, favelas e
comunidades urbanas precisam ser incluídas nas políticas que articulam
formação, energia, conectividade e desenvolvimento urbano.
Em São Paulo, com o secretário municipal de Cultura José
Antônio Silva Parente, o Totó Parente, reforçamos a cultura como vetor
econômico, não como discurso, mas como prática. Em pouco mais de um ano, os
programas em andamento mostram como a cultura pode organizar territórios e
gerar renda.
Em Maricá (RJ), sob a liderança do prefeito Washington Luiz
Cardoso Siqueira, o Quaquá, encontrei uma experiência singular: a única
secretaria especial dedicada à Promoção das Comunidades, hoje conduzida por
Brunna Tavares. Fica claro que o desafio não é testar ideias, mas sustentá-las
ao longo do tempo. Política pública não pode ser só projeto de governo.
Esse percurso revela algo simples: o Brasil já tem gente
qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir
desenvolvimento. O que falta é conexão, escala e continuidade. Não é preciso
começar do zero, mas articular melhor o que já existe.
Por trás das instituições há pessoas que tomam decisões e
sustentam políticas no dia a dia. Reconhecer lideranças não é personalizar a
política, mas admitir que nenhuma agenda pública se sustenta sem gente
preparada e capaz de executar. O Brasil real já produz respostas; o desafio é
transformá-las em agenda pública de Estado.

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