Vítima de uma vaidade juvenil, Lula contribuiu para um
fato com pouco potencial de dano jurídico imediato, mas imensos efeitos
colaterais em termos de mobilização da oposição e aprofundamento da antipatia
de um público que precisa conquistar
É difícil encontrar boas razões para o apoio de Lula ao
desfile em sua homenagem promovido pela escola de
samba Acadêmicos de Niterói. Vítima de uma vaidade juvenil, o presidente
contribuiu para um fato com pouco potencial de dano jurídico imediato, mas com
imensos efeitos colaterais em termos de mobilização da oposição, produção de ruído político e aprofundamento
da antipatia de um público que Lula precisa conquistar.
Vejamos, em alguns pontos, os
desacertos do episódio, a começar pelo que toca ao Direito Eleitoral. Seus
opositores levaram o assunto à Justiça, na intenção de impedir a realização do
desfile por considerá-lo propaganda eleitoral antecipada. A tese não foi
acatada, e o desfile foi apresentado sem intercorrências. A simples judicialização do tema, contudo, já deveria
acender um alerta.
Num cenário de extrema disputa política, com instituições
tão permeáveis aos humores do momento e à captura da própria polarização, não
convém abrir um flanco que poderá ser explorado futuramente em
cenários de fragilidade. É um risco alto demais para um ganho tão diminuto. Não
vale a pena.
Os impactos maiores se dão em outro campo: na
comunicação com a sociedade. Um desfile de escola de samba é uma grande
história encenada, dançada, cantada. Há uma narrativa que se exibe na evolução
da avenida, uma visão de mundo, valores, símbolos que fundam seu poder
justamente na capacidade de tocar o imaginário social compartilhado e ativar
emoções muito profundas. Nenhum desfile de carnaval é, por isso, neutro do
ponto de vista dos valores, ele representa escolhas, um certo olhar sobre o mundo
e sobre a cultura.
Na história contada pela Acadêmicos do Niterói, acompanhamos
Lula desde a sua infância no sertão, e episódios da sua biografia tumultuada e
única, revivemos o impeachment de Dilma Rousseff, e encontramos um
Michel Temer que arranca a faixa presidencial para entregá-la a Jair Bolsonaro.
O ex-presidente ressurgirá, adiante no cortejo, representado em uma grande
figura encarcerada, com as feições de palhaço/vilão. Entre as alas, a família
enlatada indica o apoio dos setores conservadores e evangélicos da sociedade ao
grupo político antagonista a Lula.
Entre os conservadores, o efeito negativo da crítica à
hipocrisia do moralismo cristão caiu, como era de se esperar, na
conta de Lula, revertendo meses de trabalho custoso de aproximação. Como
produção artística, a família enlatada foi uma bela ala carnavalesca, porque
sintetizou numa imagem todo um discurso.
Como fato eleitoral, o desfile foi um erro evitável, e
seus conselheiros mais leais já haviam sinalizado. Em uma eleição que será
decidida voto a voto, a alegria de carnaval tem um custo alto demais para valer
o risco.

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