Por onde você olha, vê notícias de Jeffrey
Epstein e do Banco Master.
Não estou reclamando, pois sou um dos primeiros a pedir transparência para que
todos os detalhes sejam conhecidos, inclusive as festas orgíacas em Trancoso,
se houver autoridades no meio.
Não custa nada tomar uma pequena distância e constatar
também que estamos muito dependentes de grandes escândalos, novas e grandes
emoções. Sempre me interessei por esse tema, também no trabalho de roteiristas
de streaming, buscando suspense, choques, incríveis reviravoltas.
Creio que foi em John Gray, um analista do mundo
contemporâneo, que vi algumas referências iniciais sobre esse estado de coisas.
Gray parte da vida vazia e monótona que muitos são obrigados a viver para
explicar a grande demanda por emoções. Os repórteres de televisão parecem
compreender isso, intuitivamente. Não importa o que aconteça, sempre perguntam
ao entrevistado como está se sentindo. Como se sente com a polícia invadindo a
sua casa? Como se sente ganhando este prêmio científico? Como se sente viajando
de tão longe para ver a Madonna? Se puderem entrevistar alguém caindo do 15º
andar, no momento em que passar pelo oitavo, perguntarão:
— Como se sente até aqui?
Esse déficit de emoções é complicado e diz respeito a
mudanças profundas no estilo de vida, na organização do trabalho. Mas coloca
para nós a dificuldade de tratar de temas menos glamourosos, como o estouro do
Orçamento, lacunas no saneamento básico, reforma política.
Já que entrei nesse assunto, acho que existe um pequeno
déficit de atenção à saga do craque Vini Jr. É um dos maiores jogadores do
mundo. Seu desempenho no Real
Madrid o coloca entre os maiores que passaram pelo time. E olha que
passaram muitos: Cristiano
Ronaldo, Di Stéfano, Puskás.
Vini enfrenta uma onda de racismo na Europa. Às vezes, é
vaiado porque os torcedores de seu time querem que jogue mais. Mas as torcidas
adversárias o vaiam por puro racismo. Às vezes o insultam, e já houve casos que
foram parar na Justiça. Jogadores brancos também o insultam, como foi o caso do
argentino Gianluca Prestianni, do Benfica.
Nas arquibancadas do estádio português, torcedores imitavam macaco.
Apesar, ou talvez por causa, de seu enorme talento
esportivo, Vini foi arrastado para uma luta histórica e responde com firmeza.
O Itamaraty já
se manifestou a seu favor, e isso é importante, pois seu país está oficialmente
ao seu lado. Mas treinadores e mesmo alguns jornalistas brancos europeus têm
dificuldade em refletir sobre seu racismo inconsciente.
É uma grande batalha, e, felizmente, Vini não está só. Creio
que, apesar de sua simplicidade, esse garoto de São Gonçalo (RJ) figurará nos
livros de História, não apenas na esportiva, mas na mais ampla história do
racismo no mundo.
Já tivemos um jogador negro de grande repercussão: Pelé. Mas, na sua
época, o tema ainda era envolvido num tom conciliatório que não cabe mais.
Hoje, as coisas são mais nítidas, e Vini as enfrenta com muita coragem, ação e
pouco discurso. Estamos vendo uma luta poderosa, e nunca é cedo para reconhecer
seu valor histórico.
Artigo publicado no jornal Estadão em 24 / 02 / 2026

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