A Microsoft chamou o desenvolvedor austríaco Peter
Steinberger para conversar, a Meta mandou um envelope com proposta
Um bilhão de dólares por uma contratação. Isso é novo.
Semana passada foi a primeira vez em que a imprensa de economia que olha para o
mundo digital falou de compra de passe como se fosse jornalismo esportivo. E
teve disputa. A Microsoft chamou o desenvolvedor austríaco Peter Steinberger
para conversar, a Meta mandou um envelope com proposta. Ao fim, ele topou o
convite da OpenAI. E o valor do contrato foi este: US$ 1 bilhão. A OpenAI pode
parecer rica, mas, no jogo das três líderes do mercado de inteligência
artificial, que inclui também Anthropic e Google, é a que está com o caixa mais
pressionado. Não é dinheiro gasto com facilidade. Ainda assim, pagou. Por quê?
Steinberger é o desenvolvedor que, em
algumas semanas entre novembro e dezembro, criou o OpenClaw. Neste ano, é a
terceira vez que esse software é tema por aqui. Complicado de instalar, com
inúmeros problemas de segurança, ele leva a IA para o mundo. Permite criar um
robô autônomo dentro de qualquer computador conectado à internet, que usa a
rede para fazer o que seu humano mandar. Se não sabe fazer, escreve o programa
que lhe permite agir. Nas palavras de Sam Altman, CEO da OpenAI, a missão de
Steinberger será liderar o time que fará o mesmo que o OpenClaw, mas de forma
que “até minha avó possa usar”. Um sistema assim não está longe de surgir.
Coisa de um, dois anos.
Mas o que é? Imagine o smartphone reinventado. Em vez de
abrir um app de chamar carro, simplesmente mandar um zap ao robô: “Chama para
mim um carro executivo”. Ele não procurará num só aplicativo, procurará em
todos e escolherá o mais barato. Ou então mandar outra mensagem: “Quero viajar
com a família para a França no ano que vem, qual a melhor época?”. Ele diz
quando o clima é melhor, quando as passagens são mais baratas, fala que viajar
na quarta traz mais chance de upgrade que na sexta. Desenha o roteiro, modifica
conforme o pedido. E, quando todas as decisões estiverem tomadas, escolhe em
que época é melhor comprar a passagem, reservar os hotéis. Aí faz os
pagamentos.
Ou então volte-se ao mundo corporativo. Grandes empresas
trabalham com plataformas caras de software. Gerenciam folha de pagamento,
estoque de produtos, relação com fornecedores e consumidores, tudo. Como cada
companhia tem suas particularidades, boa parte do ganho dessas fornecedoras
está na consultoria que vem junto. É caro montar o pacote para fazer o negócio
girar e, todo ano, essas gigantes do software impõem um aumento. Como o custo
para trocar fornecedor é sempre muito alto, ficam trancadas na escolha. Quando
um robô inteligente pode ir desenvolvendo seu sistema internamente, o gerencia
e conserta bugs que apareçam eventualmente, a vida melhora. Melhora muito. Os
custos com tecnologia despencam.
Apenas exemplos corriqueiros de como agentes assim,
autônomos, são transformadores. Reorganizam a vida de todo mundo e mexem
radicalmente na economia física e na digital. Um OpenClaw fácil de usar pode
ter muitas interfaces diferentes. Para muitos dos usos atuais de smartphones,
ninguém precisará de um paralelepípedo com tela. Chamar um carro? Basta dar a
ordem por voz. Isso se resolve com fone, relógio ou par de óculos. O robô da
empresa vive na nuvem. Não quer dizer que smartphones deixarão de existir, mas
possivelmente não serão mais o centro da vida digital.
E não é só a interface, a forma como interagimos com
tecnologia. Para que, exatamente, servirão negócios como agências de turismo?
Como empresas aéreas gerenciarão seus preços e disputarão mercado? Como
funcionarão investimentos quando todo mundo tiver sistemas equivalentes para
escolher no que aplicar dinheiro? Publicidade anunciará de que jeito?
Há uma razão para a Anthropic, dona do Claude, não ter
apresentado qualquer proposta para Steinberger. Ela é quem está mais avançada
num agente. Seu Cowork funciona por enquanto apenas nos computadores pessoais,
já gerencia arquivos fora da janela de chat e abre alguns aplicativos, como
Notion ou Excel, e, dentro deles, manipula dados. Tudo a partir de uma ordem
dada pelo usuário.
Essa supercontratação deixa evidente parte da loucura que é
o mercado de IA. Em outubro, não estava ainda claro que agentes autônomos
chegariam tão rápido. Os passos são, muitas vezes, assim. Saltos repentinos.
Esse ritmo deverá aumentar.

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