Com bons números na economia, Lula chega como favorito na
campanha. E Flávio tenta herdar o espólio bolsonarista
O ambiente econômico de 2026 é favorável ao presidente Lula.
Inflação sob controle, juros em queda, dólar fraco, crescimento maior do que no
governo anterior, desemprego baixo e melhoria da renda. E a disputa sempre
favorece o incumbente. Nas quatro eleições em que o presidente, ou a
presidente, concorreu no cargo, só Jair
Bolsonaro perdeu. Apesar de a pesquisa ter mostrado que Flávio
Bolsonaro herda parte importante do espólio do pai, ele não tem a
mesma capacidade de mobilização nem conseguiu galvanizar a direita. O
favoritismo nesta eleição é do presidente Lula.
Os dois candidatos com mais intenção de
votos têm em comum uma alta rejeição, mas é preciso levar em conta a dinâmica
da disputa eleitoral. Normalmente, a rejeição cai, até porque campanha é o
esforço de falar bem do candidato, mostrar suas realizações e convocar o bom
recall. O presidente Lula tem um enorme legado para trazer de volta à memória
dos eleitores, como ascensão social, período de crescimento, e boas relações
com o mundo.
O recall de um “Bolsonaro” é contaminado pelas más
lembranças da pandemia, quando o então presidente ofereceu ao país uma sucessão
de frases ofensivas e impiedosas. As falas do tipo “eu não sou coveiro” ou
“chega de mimimi”, “vai ficar chorando até quando?” ficaram marcadas.
Os economistas de mercado financeiro já começam a dizer que
o candidato da direita tem mais capacidade de reduzir o déficit público, mas
sabem que não se baseiam em evidências. O “tesouraço” prometido no artigo do
Brazil Journal é apenas uma palavra. Quem leu o artigo viu que nenhuma medida
sustenta a promessa. Além do mais, há os fatos. A economia de Bolsonaro não foi
bem, nem para os parâmetros liberais. Ele ampliou muito os gastos no ano
eleitoral, deu calote em precatórios, fez quatro intervenções na Petrobras,
privatizou só a Eletrobras porque ela estava preparada desde o governo Temer.
Não conseguiu preparar nenhuma outra empresa para a venda. Reduziu impostos
federais e estaduais apenas para manipular preços dos combustíveis e reduzir a
inflação artificialmente.
O déficit primário é menor no governo Lula do que nos
governos de Michel Temer e
Jair Bolsonaro, porém é um assunto difícil de tratar na corrida eleitoral. O
prejuízo dos Correios é muito mais concreto e exibido como prova de que os
governos do PT são gastadores. De fato, o rombo cresceu muito. Há detalhes
difíceis de explicar nas contas das estatais. A Emgepron, estatal da Marinha,
por exemplo, teve superávit no governo Bolsonaro e agora tem déficit. É efeito
estatístico. Bolsonaro aportou R$ 10 bilhões do Tesouro na estatal. Por isso,
aparece superavitária. Nos anos seguintes, a empresa tem gastado esse dinheiro
e, por este motivo, passa a registrar déficit. Não é que a Emgepron esteja
tendo prejuízo. Está fazendo os investimentos previstos. Só que não há campanha
que explique isso.
Economistas distantes da polarização e que são capazes de
ver virtudes no governo Lula acham que ele deveria fazer uma promessa de ajuste
fiscal no início de um novo mandato. É necessário porque as despesas
obrigatórias têm crescido acima dos limites do arcabouço, e da capacidade do
país de absorver. Em parte, a explicação está nos aumentos reais do salário
mínimo que voltaram neste mandato, o que indexa a maioria das despesas
previdenciárias.
Estes são temas áridos no palanque, mas que fazem parte do
debate. O bolsonarismo fará aquelas promessas que não cumpriu da primeira vez
que governou o país. A outra direita, a que se organiza em torno do coletivo de
candidatos do PSD, pode ter crescimento. A queda de Ratinho
Júnior. na última pesquisa Quaest decorre de ele ainda não ser candidato, e
a apresentação por Gilberto
Kassab da sua trinca mais confundiu do que esclareceu sobre a
candidatura alternativa da direita.
No período oficial de campanha, o presidente Lula contará
com a vantagem de uma situação econômica que não atrapalha, pelo contrário,
ajuda. E com o fato de ser o incumbente. Quem quiser acreditar que Flávio é
moderado terá que esquecer, por exemplo, que numa entrevista à Folha, em 14 de
junho de 2025, ele disse que o grupo do pai só apoiaria um candidato a
presidente disposto a impor ao Supremo a aprovação do indulto ao ex-presidente.
“Estamos falando da possibilidade do uso da força, de interferência em outro
poder”. Não há um moderado de nome Bolsonaro.

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