Escrever numa terça-feira de carnaval amplia a latitude de
um artigo político. Ainda mais porque faço hoje 85 anos. Amanhã, começa para
valer o ano eleitoral. Poderia escrever sobre o debate entre grandes projetos
políticos para o Brasil. Toda eleição, faço isso. Mas a experiência me diz: não
vão rolar.
Para que perder tempo? Esta é a última eleição presidencial
da minha vida. Com alguma sorte, a penúltima. Não adiantam grandes
elucubrações. D. H. Lawrence afirma que é uma pena, ao lermos livros como “O
futuro da América” ou “A situação da Europa”, não poder imaginar a pessoa gorda
ou magra que dita o texto a uma estenógrafa com bobs no cabelo ou escrevendo,
com caneta-tinteiro, marcas no papel.
Aqui, de uma varanda em Ipanema, com uma gata dormindo ao
lado do computador, sou capaz apenas de imaginar algumas coisas que podem ser
boas para as novas gerações. O Brasil precisa usar racionalmente suas riquezas
naturais, completar a transição energética, proteger as florestas. Talvez
precise compreender melhor o mundo digital, preparar-se para o bom uso da
inteligência artificial, formular um projeto gradativo de autonomia das grandes
plataformas.
Vamos discutir segurança pública e compreender, finalmente,
que, sem integração de forças, não há saída. Só se integra com confiança
recíproca. Isso não vai rolar, pelo menos não com facilidade. Há um grande muro
subjetivo nos afastando da solução.
Se os candidatos analisarem o mundo, compreenderão que ele
mudou. É preciso diversificar negócios, abrir novas frentes. Lula compreende
isso bem. Ninguém viajou tanto quanto ele, nem se tornou tão presente no
cenário internacional.
Mas é preciso também aprimorar a segurança nacional. Às
vezes, Lula parece não compreender isso, com esse papo de sangue de Lampião.
Será preciso investimento nas Forças Armadas e preparação real da sociedade.
De qualquer forma, uma das coisas que precisam ser feitas é
jogar o foco nas eleições parlamentares. Também não vai rolar. A experiência
mostra que tudo se concentra na presidencial. Mas é preciso advertir que o
Congresso, no Brasil, tornou-se muito poderoso. Ele manipula verbas de R$ 50
bilhões, não depende do presidente como antes e teve performance muito
medíocre.
Se o resultado das eleições parlamentares for muito
diferente, em termos políticos, da presidencial, teremos dificuldades pela
frente, com uma força bloqueando a outra. Também não vai rolar, mas valeria a
pena discutir um projeto de longo prazo para reduzir a corrupção no Brasil.
Escrevi um longo artigo, na semana passada, com algumas
ideias. A gente começou com muito entusiasmo em torno das Diretas. Esse
entusiasmo arrefeceu. Não deixem a peteca da democracia cair. Não verei mais de
duas eleições por causa da idade. Mas é preciso que elas continuem para sempre.
Artigo publicado no jornal O Globo em 17 / 02 / 2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário