Presidente usa indefinição da oposição para largar na frente e tentar reverter insatisfação com seu governo
O terceiro mandato de Lula ainda carece de respaldo junto ao
eleitorado. Um ano se passou desde que sua aprovação começou a sofrer uma
erosão, que atingiu o ápice em meados de 2025. Desde então, ele apenas
recuperou um patamar de zero a zero. Ainda assim, aproveita o momento de apagão
da oposição para ocupar sozinho a vitrine eleitoral, e isso pode lhe garantir a
dianteira necessária para vencer de novo, provavelmente em nova disputa
acirrada, como a de quatro anos atrás.
O fundador do Ideia, Maurício Moura, observa que a pergunta
na cabeça da população neste momento é se Lula merece continuar na Presidência.
Ao responder diretamente a esse questionamento, 51% dizem que não, de acordo
com a última pesquisa do instituto para o Meio.
Mas o que explica, então, que o petista
lidere todos os cenários de primeiro e segundo turno? A falta de clareza quanto
a quem será o adversário do lulismo em outubro parece garantir a Lula a
dianteira, que ele vem procurando aproveitar usando todas as oportunidades
possíveis para desfilar o que acredita serem as marcas da atual gestão capazes
de carimbar seu passaporte para mais um mandato.
Até a abertura do ano judiciário foi palco para o presidente
falar de reforma do Imposto de Renda (IR), de pleno emprego, da saída do Brasil
do Mapa da Fome, da operação Carbono Oculto (olha a segurança pública aí...) e
do novo produto em sua gôndola, o combate à violência contra a mulher,
tentativa inteligente de se reconectar com o eleitorado feminino, fundamental
para a vitória sobre Jair Bolsonaro em 2022.
O governo acredita que a economia funcionará, quando a
campanha começar para valer, como trunfo, e não revés. Isso a despeito dos
dados que mostram o aumento do peso da dívida sobre o PIB e a fragilidade do
arcabouço fiscal e de as mesmas pesquisas apontarem avaliação negativa nessa
seara.
Lula se vale não só da isenção do IR para quem recebe até R$
5 mil, mas também da resiliência diante do tarifaço, do pleno emprego, de
medidas que aliviaram o peso de energia e gás de cozinha para os mais pobres e
de sua entrada tardia na defesa da redução da jornada de trabalho e na
tentativa (ainda sem sucesso) de dialogar com os trabalhadores de aplicativos.
São essas bandeiras que Sidônio Palmeira tem tratado de embalar de forma
atraente na propaganda oficial, que deu uma guinada em termos de qualidade e
eficiência desde a troca na comunicação.
A largada na frente, enquanto a oposição procura o próprio
rabo desde que Jair Bolsonaro foi preso, é o tempo que os aliados do presidente
julgam ser necessário para reverter a impressão das pesquisas de que ele já deu
o que tinha que dar. Não se trata de trabalho fácil diante do cansaço natural
da imagem de alguém que está há tanto tempo na estrada e enfrentou ao longo de
duas décadas, desde a primeira vez que chegou ao Planalto, vários casos de
corrupção, uma prisão e o impeachment de sua pupila.
Mas Lula entendeu cedo que precisa ter discurso também para
o antipetismo que se cristalizou nesses episódios e é um dos seus flancos mais
frágeis, com a segurança pública. Na entrevista que concedeu à jornalista
Daniela Lima, do portal UOL, não se furtou a responder sobre os escândalos do
Banco Master e do INSS. Ele parece concordar com os analistas que acreditam ser
difícil furar a polarização já dada. Nesse cenário, tem de atrair novamente o
contingente que lhe deu a vitória sobre Bolsonaro, mas está insatisfeito com
seu governo.
Parece estar guardando munição para atingir Flávio, mais
frágil e com menos fã-clube que o pai, apenas na hora certa, quando for tarde
para trocá-lo por um candidato mais palatável ao centro.
— A pergunta que mais respondo fora do Brasil é: “Por que a
oposição não quer ganhar as eleições?” — diz Maurício Moura.
A explicação parece clara: Bolsonaro levou a direita para a
prisão consigo. Lula agradece.

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