Governo dos EUA organiza sistema de produção e comércio
mundial de minerais críticos
Política do Brasil para o setor começa só agora e ainda
tem de lidar com ofensiva americana
De 2024 para 2025, o valor da exportação brasileira de
terras raras triplicou. Algo anda, mas do quase nada para muito pouco. O valor
exportado foi de US$ 13,3 milhões. Um troco, dado o valor total das exportações
nacionais, de R$ 349 bilhões.
Em quantidade, as exportações (785,3 toneladas) equivaleram
a 1,2% das vendas chinesas. Ironia: 89,8% das exportações foram para a China; 8,4% para
a França, 1,4% para a Espanha (contas baseadas nos dados da Secretaria de
Comércio Exterior).
Terras raras não
são nem serão pote de ouro no fim do arco-íris da economia brasileira
—nem um potinho. Mas são oportunidade econômica e possível instrumento de força
política internacional (e, assim, talvez para outros negócios).
Desde dezembro, Brasil e EUA negociam acerto sobre minerais
críticos. Luiz
Inácio Lula da Silva voltou a falar do assunto, nesta quinta. Sem terras
raras e subprodutos, a indústria de tecnologia avançada, militar e de transição
energética para. Mas o valor do negócio não é grande.
Uma encrenca é que o Brasil vai entrar nesse negócio
geoeconômico enquanto o governo dos EUA reorganiza a economia dos minerais
críticos (terras raras incluídas) por meio de intervenção estatal e arranjo
internacional, muita vez por meio de acordos políticos extraídos sob ameaça
comercial ("tarifas") ou militar.
Nesta semana, Donald Trump anunciou
o "Project
Vault" (Projeto Cofre), que é mais do que a formação de um estoque de
minerais críticos. É parte do plano de criar demanda regular desses produtos e
garantir preços.
Assim, em tese diminui o risco de investir em minas —leva
uns oito anos para fazer um projeto desses funcionar; uns cinco anos para criar
uma fábrica de processamento (isso depois de aprender a tecnologia, quase toda
chinesa). Para incentivar investimento, garantias são necessárias, ainda mais
porque China tem poder sobre esses preços. O dinheiro para esse estoque
regulador vem do Eximbank (oficial), US$ 10 bilhões, e de empresas (US$ 1,7
bilhões).
Não se trata de um Estado projetando um mercado, mas
formatando e subsidiando um negócio crucial para a segurança econômica e
militar —ou dele sendo sócio. Aliás, os
EUA acabam de emprestar mais dinheiro para a Serra Verde, com opção de se
associar a essa brasileira de capital americano-britânico, ora a produtora
nacional de terras raras.
Trump 2 fez acordos com Japão, Austrália, Malásia,
Tailândia, Vietnã, Camboja etc. Além de garantir acesso preferencial para
empresas americanas (no caso de países menores), acertou planos de
financiamento de parcerias de extração e processamento, de comércio, de garantia
firme de compra de produção e de estabilização de preços. É política
industrial até a medula, em acerto internacional.
O mundo já corre para dominar processamento de terras raras
e produção de ímãs. Os EUA vão criando um sistema de produção que garanta a sua
segurança e isole a China.
A encrenca é como o Brasil vai fazer sua produção e tourear potências; como fazer com que essa produção tenha sentido econômico. Nem sabemos ainda da viabilidade das nossas famosas reservas enormes de terras raras.
Precisamos investir em ciência (não ligamos para isso), talvez arrancar parcerias de pesquisa e investimento dos americanos. A estratégia nacional foi lançada neste janeiro. Mas está quase tudo por fazer em estudo de viabilidade dos recursos e de produção, impulso para pesquisa aplicada e plano geoeconômico.

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