Na passarela, o surrado enredo “é preciso mudar tudo que
está aí”
No carnaval, segundo a máxima, “quem sobe, desce”. Tradução:
escolas recém-promovidas são candidatíssimas a voltar ao lugar de onde vieram.
A Acadêmicos de Niterói não fugiu à sina, dirão os experts. Mas o histórico dos
desfiles cariocas não explica tudo. O rebaixamento era uma barbada. A nota oficial divulgada
após o desfile na Marquês de Sapucaí, na qual a escola de samba pedia uma
análise estritamente técnica do seu desempenho no percurso até a Praça da
Apoteose, revelava o temor, talvez a certeza, do destino anunciado. É difícil
afirmar até que ponto o “medo venceu o amor” na decisão dos jurados. O tribunal
das redes sociais havia dado seu veredicto antes mesmo de a escola atravessar a
Sapucaí na noite do domingo 15. O bloco do udenismo estava na rua e a
marchinha da “indignação seletiva” contagiava os cidadãos de bem, que saltaram
das suas latas em conserva para protestar contra a “campanha eleitoral
antecipada” em favor do presidente Lula, embora o petista tenha sido tema de
enredo no passado sem que a homenagem revirasse as entranhas dos foliões da
moralidade. A Acadêmicos ficou na lanterna, mas conquistou os holofotes no
sambódromo, no Brasil e no exterior. Um feito.
Enquanto isso, no mundo das latas em
conserva, ouve-se o grito do narrador: deeezzz, nota deeezzz. A campanha
contra a escola de Niterói proporcionou um efêmero triunfo. Não deixa de ser
alguma coisa. Sem um projeto para o País, na ausência de uma única e escassa
ideia a não ser retirar Lula do topo do carro alegórico chamado Brasil, a
estratégia da oposição tem sido tumultuar a avenida. E eis que voltamos a
escutar o samba batido de outros carnavais: mar de lama, esquindô, falência das
instituições, esquindô, e vamos “acabar com tudo isso que está aí”, ziriguidum.
Salve, salve, comunidade. O lavajatismo pede passagem. Para os saudosistas, só
falta fantasiar Sergio Moro e Janaína Paschoal de mestre-sala e porta-bandeira,
seguidos de uma motociata cívica de Bolsonaro financiada com dinheiro público.
E se não for possível chegar à Apoteose, há sempre a chance de convidar os
patriotas para um after party, uma reedição da Festa da Selma.
Para sambar até a rampa do Palácio do Planalto, o udenismo
precisa, antes, fazer do Supremo Tribunal Federal a Acadêmicos de Niterói da
Praça dos Três Poderes. Nesta fanfarra, admitamos, a própria Corte tem dado uma
contribuição inestimável. O ministro José Dias Toffoli ofereceu confetes e
serpentinas ao achincalhe. A despeito de uma campanha orquestrada e interessada
de quem visa subjugar o STF, os conflitos de interesse eram mais que
suficientes para levar o magistrado a se declarar impedido de conduzir as investigações sobre o Banco
Master. Toffoli se expôs e expôs o colegiado e colocou o tribunal no centro do
palco onde deveriam estar os verdadeiros cúmplices da tramoia: governadores
bolsonaristas que arriscaram as aposentadorias de servidores estaduais,
políticos do Centrão, pastores da Igreja Lagoinha e o ex-presidente do Banco
Central Roberto Campos Neto.
O ministro Dias Toffoli forneceu confetes e
serpentinas a quem visa “rebaixar” o Supremo
A relutância de Toffoli elevou o terrivelmente evangélico
André Mendonça ao posto de rainha da bateria. Por sorteio, Mendonça conduzirá
os dois inquéritos mais explosivos da República, a quebra do Master e os
descontos indevidos do INSS. O ministro assumirá ainda a vice-presidência do
Tribunal Superior Eleitoral, em dobradinha com Kássio Nunes Marques, o outro
magistrado indicado por Bolsonaro. O ex-presidente, entre soluções e ataques de
pânico, assiste aà evolução dos acontecimentos do camarote da Papudinha e seus
aliados preparam as fantasias para o carnaval fora de época.
Nessa pipoca o Brasil promete pular até outubro. Os Poderes
serão arrastados pela multidão, atrás do trio elétrico? O STF, que abriga
atualmente seis de dez ministros indicados pelo PT, vai superar a ressaca?
Toffoli saiu, por ora, da berlinda, mas Alexandre de Moraes continua com um
alvo na careca. O presidente da Corte, Edson Fachin, parece tentado a ceder à
demagogia e à banalidade, vide a proposta de se discutir um supérfluo código de
ética, enquanto o Conselho Nacional de Justiça prefere premiar com aposentadoria
compulsória no lugar de punir devidamente magistrados corruptos e
desembargadores fazem procissão a Brasília para derrubar a decisão de Flávio
Dino de cortar o pagamento dos mal chamados “penduricalhos” (gratificações
exorbitantes que multiplicam por quatro, cinco vezes os paupérrimos salários do
Judiciário).
Dino tem sido uma honrosa exceção. Último indicado pelo
presidente Lula ao Supremo (falta o presidente enviar o nome de Jorge Messias
para sabatina no Senado), o ministro é, sem medo de ser feliz, o solitário
acerto do petismo. Lula e Dilma Rousseff conseguiram uma proeza inigualável. Os
dois foram responsáveis por nomear, ao longo dos mandatos, 15 integrantes do
STF. A lista de equívocos assombra e vai do “humanista” Eros Grau, que validou
a Lei da Anistia imposta pelos militares, ao “herói” Joaquim Barbosa, que
distorceu a tese do domínio do fato para corroborar as condenações do Mensalão.
Sem esquecer a “racional” Rosa Weber e seu indecifrável voto a favor de uma
maioria inexistente na rejeição ao habeas corpus a Lula, Luiz “mato no peito”
Fux, recém-convertido ao garantismo, e do próprio Toffoli, cuja reflexão
intensa e conversas esclarecedoras com generais o levaram a chamar o golpe de
1964 de “revolução”. Se os homens – e mulheres – se medem nas circunstâncias,
Dino é um Gulliver na ilha de Lilliput.
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25
de fevereiro de 2026.

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