Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem
anunciado acordos nos Estados
Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da
República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa
eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os
quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.
A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca
negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no
varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho
Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões
ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.
A avaliação interna é que Lula precisa ter
segurança quanto às indicações e à consolidação dos palanques antes de qualquer
anúncio. Por isso, o processo não deve ser acelerado, mesmo com Flávio tornando
públicos seus apoios. A expectativa é que o desenho geral com a chancela
petista seja fechado entre o fim de abril e o começo de maio.
Segundo fontes, a definição do presidente precisa ser
amplamente alinhada, de modo a evitar brechas para críticas de aliados ou
episódios de fogo-amigo. A estratégia é blindar a montagem das chapas para
preservar inclusive a imagem de Lula, que tentará reeleição.
Aliados do chefe do Executivo minimizam o documento
divulgado na semana passada com os cotados por Flávio no cenário de aliança nos
Estados. As fontes avaliam que alguns dos nomes que estão nos papéis do senador
não estarão no palanque de Lula, como a governadora de Pernambuco, Raquel
Lyra (PSD). Ela deve concorrer contra o prefeito de Recife, João
Campos (PSB).
Outro motivo para Lula não ter pressa é a federação formada
por União Brasil e Progressistas. Os partidos têm como objetivo aumentar suas
bancadas no Congresso e, para isso, não podem ficar fechados contra Lula,
principalmente no Nordeste. Dessa maneira, o PT articula individualmente cada
Estado, o que acaba adiando a conclusão o processo de construção das chapas.
“Lula está tentando trabalhar com presidentes de partidos,
no âmbito nacional, alianças e neutralidades numa tentativa de obter um efeito
cascata para chegar aos Estados”, afirmou uma fonte do PT.
Apesar da cautela adotada, interlocutores da sigla
reconhecem que o impasse em Estados estratégicos está travando o processo. Um
dos exemplos é o maior colégio eleitoral do país, São Paulo. Nos últimos meses,
Lula negocia para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, saia como
candidato ao Palácio dos Bandeirantes. No cenário, tido como “ideal” pelos
petistas, as ministras Marina Silva (Rede) e Simone
Tebet (MDB) seriam as candidatas ao Senado. Marina negocia voltar ao
PT para concorrer e Simone poderá se filiar ao PSB.
O presidente também acompanha de perto, segundo aliados, a
tentativa do PL de emplacar André do Prado, presidente da Assembleia
Legislativa de São Paulo, como vice do governador Tarcísio de
Freitas (Republicanos-SP), que tentará a reeleição. A aposta é que, se
confirmado o movimento, a saída do atual vice-governador, Felício
Ramuth (PSD), abra as portas para a legenda comandada por Gilberto
Kassab não entrar de cabeça na campanha de reeleição do governador
paulista e, consequentemente, não trabalhar para Flávio no Estado.
Em Minas Gerais, apesar de as negociações com o
senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) estarem avançadas para que ele saia
como nome ao governo apoiado por Lula, petistas dizem que ainda falta uma
confirmação pública do parlamentar para caminhar com as indicações para os
demais postos. Isso porque, segundo interlocutores, bater o martelo em torno do
candidato à gestão mineira é peça fundamental para destravar tanto a escolha do
vice quanto do Senado.
Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério
Marinho (PL), líder da oposição no Senado, afirmou ao Valor que
a ideia é acelerar o processo de escolha dos palanques estaduais. “Onde não for
possível, vamos aguardar. Existem várias ações que precisam ser implementadas e
que naturalmente vão ficar muito mais fáceis se a gente for definindo os
palanques estaduais”, disse.
Para ele, eventuais dificuldades de composição, como no caso
de Santa Catarina, onde a chapa para reeleição do governador Jorginho
Mello (PL) terá Carol de Toni e Carlos Bolsonaro ao Senado,
todos do PL, excluindo o senador Esperidião Amin (PP), se justificam
pelo crescimento da legenda. “Se nós fôssemos um partido como o PT, que só tem
a cabeça e não tem corpo, não teríamos essa dificuldade. Teríamos a
possibilidade de fazer uma negociação bem mais confortável em cada Estado da
federação”, comentou.
Marinho vê com naturalidade que partidos, como o União
Brasil e o PP, acomodem seus apoios nos Estados ao lado tanto de Flávio quanto
de Lula, a depender da circunstância local.
“Isso cai para os dois lados e é absolutamente normal. Na
hora em que as definições acontecerem, você só precisa fazer uma conta de somar
e acertar mais do que errar. O Flávio tem sido muito aberto nesse processo de
composição”, declarou.
Sobre a questão da disputa pela vice de Tarcísio poder
afastar eventualmente o PSD de Flávio, Marinho argumenta que a legenda de
Kassab tem candidatura à Presidência e, por isso, eventuais costuras ficam para
o segundo turno. “A circunstância da campanha é quem vai dizer como os partidos
vão se comportar”, disse.


