segunda-feira, 2 de março de 2026

PT AGUARDA ALIANÇAS COM PARTIDOS PARA ANUNCIAR PALANQUES

Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico

Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem anunciado acordos nos Estados

Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.

A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.

A avaliação interna é que Lula precisa ter segurança quanto às indicações e à consolidação dos palanques antes de qualquer anúncio. Por isso, o processo não deve ser acelerado, mesmo com Flávio tornando públicos seus apoios. A expectativa é que o desenho geral com a chancela petista seja fechado entre o fim de abril e o começo de maio.

Segundo fontes, a definição do presidente precisa ser amplamente alinhada, de modo a evitar brechas para críticas de aliados ou episódios de fogo-amigo. A estratégia é blindar a montagem das chapas para preservar inclusive a imagem de Lula, que tentará reeleição.

Aliados do chefe do Executivo minimizam o documento divulgado na semana passada com os cotados por Flávio no cenário de aliança nos Estados. As fontes avaliam que alguns dos nomes que estão nos papéis do senador não estarão no palanque de Lula, como a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD). Ela deve concorrer contra o prefeito de Recife, João Campos (PSB).

Outro motivo para Lula não ter pressa é a federação formada por União Brasil e Progressistas. Os partidos têm como objetivo aumentar suas bancadas no Congresso e, para isso, não podem ficar fechados contra Lula, principalmente no Nordeste. Dessa maneira, o PT articula individualmente cada Estado, o que acaba adiando a conclusão o processo de construção das chapas.

“Lula está tentando trabalhar com presidentes de partidos, no âmbito nacional, alianças e neutralidades numa tentativa de obter um efeito cascata para chegar aos Estados”, afirmou uma fonte do PT.

Apesar da cautela adotada, interlocutores da sigla reconhecem que o impasse em Estados estratégicos está travando o processo. Um dos exemplos é o maior colégio eleitoral do país, São Paulo. Nos últimos meses, Lula negocia para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, saia como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. No cenário, tido como “ideal” pelos petistas, as ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (MDB) seriam as candidatas ao Senado. Marina negocia voltar ao PT para concorrer e Simone poderá se filiar ao PSB.

O presidente também acompanha de perto, segundo aliados, a tentativa do PL de emplacar André do Prado, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, como vice do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que tentará a reeleição. A aposta é que, se confirmado o movimento, a saída do atual vice-governador, Felício Ramuth (PSD), abra as portas para a legenda comandada por Gilberto Kassab não entrar de cabeça na campanha de reeleição do governador paulista e, consequentemente, não trabalhar para Flávio no Estado.

Em Minas Gerais, apesar de as negociações com o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) estarem avançadas para que ele saia como nome ao governo apoiado por Lula, petistas dizem que ainda falta uma confirmação pública do parlamentar para caminhar com as indicações para os demais postos. Isso porque, segundo interlocutores, bater o martelo em torno do candidato à gestão mineira é peça fundamental para destravar tanto a escolha do vice quanto do Senado.

Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL), líder da oposição no Senado, afirmou ao Valor que a ideia é acelerar o processo de escolha dos palanques estaduais. “Onde não for possível, vamos aguardar. Existem várias ações que precisam ser implementadas e que naturalmente vão ficar muito mais fáceis se a gente for definindo os palanques estaduais”, disse.

Para ele, eventuais dificuldades de composição, como no caso de Santa Catarina, onde a chapa para reeleição do governador Jorginho Mello (PL) terá Carol de Toni e Carlos Bolsonaro ao Senado, todos do PL, excluindo o senador Esperidião Amin (PP), se justificam pelo crescimento da legenda. “Se nós fôssemos um partido como o PT, que só tem a cabeça e não tem corpo, não teríamos essa dificuldade. Teríamos a possibilidade de fazer uma negociação bem mais confortável em cada Estado da federação”, comentou.

Marinho vê com naturalidade que partidos, como o União Brasil e o PP, acomodem seus apoios nos Estados ao lado tanto de Flávio quanto de Lula, a depender da circunstância local.

“Isso cai para os dois lados e é absolutamente normal. Na hora em que as definições acontecerem, você só precisa fazer uma conta de somar e acertar mais do que errar. O Flávio tem sido muito aberto nesse processo de composição”, declarou.

Sobre a questão da disputa pela vice de Tarcísio poder afastar eventualmente o PSD de Flávio, Marinho argumenta que a legenda de Kassab tem candidatura à Presidência e, por isso, eventuais costuras ficam para o segundo turno. “A circunstância da campanha é quem vai dizer como os partidos vão se comportar”, disse.

Bookmark and Share

O MUNICÍPIO É O PROTAGONISTA

Preto Zezé, O Globo

Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade

Em ano eleitoral, o foco se volta para políticas públicas concretas, e não apenas para candidatos. A intenção é analisar experiências que possam se tornar parte de uma agenda de Estado contínua, pois é no município que a política se torna realidade, impactando diretamente a vida das pessoas. O debate sobre desenvolvimento no Brasil, geralmente centrado em Brasília e nos estados, raramente considera o município como protagonista. Maricá, no Rio de Janeiro, desafia essa lógica.

A cidade usa os royalties do petróleo como ferramenta de reorganização estrutural, buscando se posicionar como centro de inovação social e econômica. Maricá desenvolveu o maior ecossistema integrado de políticas sociais do país, incluindo a Renda Básica de Cidadania (com a Moeda Social Mumbuca, que atende 32 mil famílias), a Tarifa Zero no transporte, o Restaurante Popular e o Passaporte Universitário.

O diferencial está na interconexão dessas políticas. A moeda social fortalece a economia local, a mobilidade amplia o acesso ao trabalho, e a educação qualifica a população. As transferências de renda são vistas como ponte para a autonomia, não como dependência. A estratégia reconhece a importância da economia informal e dos pequenos empreendedores, resultando na abertura de novas empresas e na busca pela diversificação produtiva, com projetos como o Porto de Maricá e o complexo hoteleiro Maraey, que somam bilhões em investimentos e preparam a cidade para o futuro pós-royalties.

A vitória da União de Maricá — que ganhou a Série Ouro e desfilará no Grupo Especial do Rio em 2027 — é exemplo do sucesso do investimento contínuo em cultura e economia criativa, gerando visibilidade, renda e fortalecendo a identidade local. O carnaval é tratado como cadeia produtiva, uma política pública bem-sucedida que projeta a marca da cidade e reforça o sentimento de comunidade.

Maricá investiu na integração com as forças policiais estaduais, no monitoramento por câmeras inteligentes e na regulamentação do porte de arma para a Guarda Municipal, tratando segurança pública como infraestrutura essencial ao desenvolvimento econômico. O turismo também foi reposicionado como política de Estado, com foco na diversificação e na inserção global.

A continuidade dessas políticas ao longo do tempo criou um ambiente de previsibilidade social e segurança jurídica, algo raro no Brasil. A população, o comércio e os investidores se beneficiam do cenário estável. Maricá funciona como laboratório de transição entre proteção social e desenvolvimento econômico, entre subsídio e crescimento.

Para construir uma agenda pública que realmente reduza desigualdades, é preciso olhar para as cidades. O futuro do desenvolvimento brasileiro pode estar mais próximo do municipalismo do que se imagina. Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade.

Bookmark and Share

domingo, 1 de março de 2026

OPERAÇÃO SABOTAGEM

Bernardo Mello Franco, O Globo

Sem força para derrotar proposta em ano eleitoral, partidos pedem apoio a empresários para impedir votação

A direita decidiu cerrar fileiras contra o fim da escala 6x1. Na semana que passou, três presidentes de partido atacaram a ideia de mudar a lei para que todo trabalhador tenha direito a dois dias de descanso por semana. As falas revelam mais sobre a mentalidade da turma do que sobre o mérito da proposta.

O chefão do União Brasil, Antonio Rueda, definiu a mobilização como “um desatino”. “É muito danosa para a economia e o setor produtivo”, decretou, sem mencionar os trabalhadores. O dono do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o fim da escala 6x1 seria “uma bomba” e se solidarizou com a classe dirigente: “Não é fácil para os empresários que já reclamam dos nossos impostos e tudo mais”.

Em jantar com endinheirados em São Paulo, os dois políticos prometeram se empenhar para impedir a mudança. “A gente tem que ter inteligência e segurar essa votação”, afirmou Rueda. “Vamos trabalhar para não deixar votar. Vamos dar a vida para isso”, empolgou-se Valdemar, sob aplausos da plateia.

Num acesso de sinceridade, a dupla admitiu que a única forma segura de barrar a proposta é sabotar sua tramitação. “Se puser em pauta, é muito difícil não passar”, reconheceu o dono do PL. “Se for a plenário, vai ser avassaladora (a aprovação)”, emendou o capo do União Brasil.

Com a experiência de quem renunciou a dois mandatos de deputado para não ser cassado, Valdemar avisou que o debate na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara será “uma guerra”. Faltou dizer que do outro lado estarão trabalhadores desarmados, que não administram verbas milionárias do fundo partidário e só vão a jantares de bacanas na condição de garçons.

As vítimas da escala 6x1 costumam ralar muito e receber pouco. Ganham a vida em ofícios como como balconista, caixa de supermercado, motorista de ônibus, frentista e auxiliar de limpeza. Sem perspectiva de melhorar a renda, esses trabalhadores passaram a sonhar com mais tempo para descansar e conviver com a família. É uma demanda justa, mas há quem prefira tratá-la com desprezo.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, declarou que “ócio demais faz mal”. “A população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar”, desdenhou. Deputado e bispo da Igreja Universal, ele comanda o partido do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Desde que o tema entrou na pauta, nas eleições de 2024, entidades patronais repetem previsões apocalípticas sobre o fim da escala 6x1. Trombeteiam um futuro de quebradeira, demissões em massa e derretimento do PIB. O terrorismo econômico não tem surtido efeito nas pesquisas, o que talvez explique a mudança de discurso dos últimos dias.

No jantar com os grã-finos paulistas, Valdemar conclamou o lobby empresarial a impor sua força em Brasília. “Temos que trabalhar para não deixar votar de jeito nenhum. Pedir a pressão dos empresários em cima de seus deputados”, disse, enfatizando as quatro letras do pronome possessivo.

Bookmark and Share