Misoginia de nicho não pode ser confundida com a de
massas
Dez mil ou 10 milhões de misóginos? A resposta importa, e
os dados disponíveis sugerem que estamos mais próximos do número menor
Após conhecermos os detalhes do brutal estupro coletivo em
Copacabana, descobrimos nesta semana que os estupradores parecem estar ligados
a grupos radicais masculinistas on-line (um dos jovens se entregou à polícia
com uma camiseta com frase do influenciador Andrew Tate). Descobrimos também
que, nesta semana, uma trend no TikTok, “Caso ela diga não”, viralizou
ensinando meninos a responder com violência física a mulheres que rejeitam suas
abordagens amorosas. Descobrimos também que essa trend faz parte de um conjunto
muito mais amplo de conteúdos misóginos on-line que registram mais de 3,9
bilhões de visualizações no YouTube. O estupro coletivo é, assim, visto como
fruto de campanhas de misoginia politicamente organizadas que atingem público
alarmante na internet.
É absolutamente natural o sentimento de
indignação quando vemos casos graves de violação de direitos humanos. O estupro
coletivo em Copacabana chocou e revoltou o país. Crimes como esse precisam ser
punidos, e novos casos impedidos. Para isso, precisamos entender exatamente a
natureza do que acontece, evitando que nossa indignação nos empurre para
diagnósticos e respostas apressadas e equivocadas.
O encadeamento de reportagens que levou ao diagnóstico da
proliferação em massa de conteúdos misóginos on-line é um exemplo desse tipo de
conclusão apressada que, em vez de ajudar a combater o problema, pode
agravá-lo. Se a misoginia organizada on-line não for tendência de massa, mas de
nicho, todo o estardalhaço que fizemos nesta semana pode dar visibilidade a
algo que deveria ser combatido nos bastidores.
Não devemos tratar da mesma maneira um mal que aflige
milhões de jovens e outro de nicho, com uma comunidade relativamente pequena de
milhares. Neste último caso, deveríamos evitar dar publicidade e fazer alarde,
como fazemos com os grupos terroristas que produzem atentados. Quando grupos
extremistas têm atuação limitada, a cobertura precisa evitar amplificar sua
relevância. A ação adequada é agir criminalmente contra os autores e alertar as
plataformas para retirar o conteúdo do ar.
Vale a pena refletir sobre o que aconteceu nesta semana. No
dia 8 de março, a Advocacia-Geral da União pediu à Polícia Federal abertura de
inquérito para apurar conteúdos com a trend “Caso ela diga não” que estimulavam
agressão a mulheres que rejeitavam abordagens amorosas. Esses conteúdos tinham
sido identificados em 2023 e não tinham sido excluídos pelo TikTok. Estavam
concentrados em poucos perfis e tinham acumulado cerca de 175 mil interações —
número expressivo em termos absolutos, mas limitado se comparado ao alcance de
ondas realmente virais.
A denúncia levou a várias reportagens que apressadamente
trataram esses conteúdos como se tivessem sido produzidos e viralizados
recentemente, e não revelaram que seu alcance era limitado. Algumas reportagens
usaram como contexto um estudo do NetLab da UFRJ apontando que canais misóginos
no YouTube acumulavam 3,9 bilhões de visualizações, sugerindo que a trend “Caso
ela diga não” poderia ser parte de um fenômeno muito mais maciço.
O estudo define misoginia como “ideologia que tem como base
o desprezo, o ódio, o controle e a aversão às mulheres”, é ligada à
“naturalização da superioridade e dominação masculinas” e expressa por ações ou
discursos de “controle, subjugação, desumanização ou violência contra
mulheres”. É um conceito amplo, amparado em literatura acadêmica, mas que reúne
comportamentos distintos, com graus muito diferentes de gravidade.
O conceito inclui sob um mesmo guarda-chuva o estímulo
explícito à violência contra as mulheres, a defesa de papéis tradicionais de
gênero (mulheres deveriam ficar em casa cuidando das crianças), a alegação de
que mulheres manipulam homens (“deixe de ser trouxa, elas sempre se aproveitam
de homem bonzinho”) e críticas ao feminismo (“mulheres usam o feminismo para
fazer falsas acusações contra homens de quem não gostam”).
Muitos estudos internacionais, para evitar chamar tudo isso
de misoginia, adotam tipologias que deliberadamente separam a misoginia
(violência dirigida à mulher) do machismo (defesa da superioridade masculina) e
da defesa de papéis de gênero mais tradicionais. A abordagem do NetLab está
associada a visões sustentando que tudo isso faz parte de uma mesma cultura
sistêmica e prefere não separar os comportamentos.
O estudo também conta todas as visualizações de canais para
as quais pelo menos três vídeos foram classificados como misóginos nesse
sentido ampliado. O número de visualizações soma todos os vídeos do canal, e
não apenas os considerados misóginos. O motivo provável é as pesquisadoras
acreditarem que, nos canais, os espectadores são levados de um tema a outro e
que a misoginia está integrada ao ecossistema. As opções metodológicas do
NetLab são sérias, documentadas e defensáveis, mas parte da cobertura jornalística
não apresentou as distinções, dando falsamente a entender que vídeos de
apologia da violência contra a mulher obtiveram 3,9 bilhões de visualizações no
YouTube.
Em algum momento esses descuidos com a datação e o alcance
da trend “Caso ela diga não” — associados à falta de explicação dos
pressupostos do estudo do NetLab — fizeram muita gente acreditar que grupos
organizados que pregam violência contra a mulher atingem milhões de jovens e
podem ser a causa provável de episódios como o estupro coletivo em Copacabana.
Esse diagnóstico equivocado levou a imprensa a dar enorme visibilidade pública
a um evento de alcance limitado, que deveria ser combatido com discrição, rigor
criminal e pressão sobre as plataformas — não com alarde. Dez mil ou 10 milhões
de misóginos? A resposta importa, e os dados disponíveis sugerem que estamos
mais próximos do número menor.

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