Castro demonstrou má-fé nesse derradeiro gesto de
governo, para tentar, com uma votação indireta para o governo do estado, eleger
um correligionário na Alerj que o ajudaria na campanha a senador.
A tentativa do ex-governador do Rio Cláudio Castro de
escapar da punição renunciando um dia antes da decisão do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) sobre a cassação de seu mandato se parece em tudo, menos no
resultado, com a do ex-presidente Collor, que, apesar de ter renunciado, foi
cassado pelo Congresso Nacional. O então presidente, no entanto, tinha um
vice-presidente que assumiu o posto e, no caso do Rio de Janeiro, houve tripla
vacância, pois o vice-governador e o presidente da Alerj não estão em condições
de assumir por questões legais.
Castro demonstrou má-fé nesse derradeiro
gesto de governo, para tentar, com uma votação indireta para o governo do
estado, eleger um correligionário na Alerj que o ajudaria na campanha a
senador. Mas foi considerado inelegível pelo TSE e disputará a eleição sub
judice. O deputado Douglas Ruas, candidato de Castro ao governo do estado,
poderá se candidatar a um segundo mandato caso vença a eleição indireta para o
mandato-tampão, enfrentando o ex-prefeito Eduardo Paes.
O estado do Rio de Janeiro, mais uma vez, vive uma situação
esdrúxula e chega a mais um ciclo eleitoral sem ter resolvido seus dilemas mais
profundos. Vive, há décadas, contínua deterioração fiscal, institucional e
social que não pode ser explicada apenas por crises conjunturais, ciclos
econômicos adversos ou mudanças de governo. O problema do Rio é estrutural e,
como tal, exige decisões políticas de longo prazo que têm sido sistematicamente
adiadas.
A sucessão de escândalos de corrupção, a fragilidade crônica
das finanças públicas, o avanço do crime organizado sobre territórios e
serviços, a baixa qualidade das políticas públicas e a dependência excessiva
das rendas do petróleo formam um quadro de vulnerabilidade que, há muito, se
retroalimenta. O estado parece funcionar sempre no limite da emergência,
incapaz de planejar o futuro. Afinal, mal consegue administrar o presente.
Nesse contexto, o livro “Um renascer para o Estado do Rio de
Janeiro” (Editora Lux) — organizado por Fabio Giambiagi, Marco Aurelio Cardoso
e Guilherme Tinoco, com artigos analíticos de 27 especialistas — surge como
contribuição relevante ao debate público. A obra, a ser lançada hoje, não traz
atalhos fáceis, mas reúne diagnósticos rigorosos e propostas factíveis para
romper o ciclo de improvisação que marca a história recente fluminense.
Violência e (in)segurança, finanças estaduais, fragilidades
institucionais, concessões públicas, royalties, economia criativa, mobilidade
urbana, saúde e educação. O diagnóstico é amplo e incômodo. Praticamente
nenhuma política pública relevante escapa do radar dos autores. Os
organizadores do livro ressaltam que a sequência de fracassos
político-administrativos do estado do Rio não é recente. Desde a fusão do
antigo Estado da Guanabara com o restante do território fluminense, em 1975,
consolidou-se um sistema de governança marcado por concentração de poder, baixa
coordenação federativa e uso recorrente do orçamento como instrumento de
acomodação de interesses.
O resultado foi a expansão desordenada de gastos, incentivos
fiscais pouco transparentes e uma estrutura estatal capturada, em diferentes
momentos, por coalizões políticas de curto prazo. A dependência das receitas do
petróleo é talvez o maior símbolo dessa armadilha. Royalties e participações
especiais passaram a financiar despesas permanentes, em vez de investimentos
estruturantes. Agora, diante da transição energética global e da economia de
baixo carbono, o que antes era conforto tornou-se risco. O declínio do estado
não é inexorável, mas o livro ressalta que a reversão depende de escolhas
políticas claras e custosas. A obra se coloca como leitura estratégica num ano
em que os brasileiros escolherão presidente, governador e parlamentares. Sem
enfrentamento da corrupção, sem reequilíbrio fiscal permanente, sem
diversificação econômica e sem recuperação da capacidade do estado de impor
regras, qualquer promessa de retomada será apenas retórica eleitoral.

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