Imagem de moderação interessa a setores da direita
liberal inclinados a sacrificar a democracia em troca de gestão privatista da
economia
Candidato terá que responder sobre seu reacionarismo e
encrencas pregressas
São Paulo O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à
Presidência pelo PL, anda vendendo uma imagem
de moderado. Não vai colar. Para citar a velha canção "Touradas em
Madri", isso é conversa mole para boi dormir. Estamos falando do filho 01
de Jair
Bolsonaro, o líder da extrema direita brasileira, condenado e preso por
tentativa de golpe e atentado à democracia e ao Estado de Direito.
A coreografia de moderado tem certo interesse. Atrai, por
exemplo, simpatias da direita liberal, viúva da sempre chorada terceira via,
que rejeita Lula e o PT, e tem histórico de se inclinar por projetos
autoritários, na expectativa de que adotem uma linha privatista na economia. O
caso mais recente foi o apoio ao próprio Jair Bolsonaro.
É um tipo de perfil que se observa em outros países da
região. O filósofo Vladimir Safatle apelidou essa irrefreável tendência de
liberais latino-americanos à aliança com a extrema direita de "complexo de
Vargas Llosa". Referência ao grande escritor e político menor peruano que,
lido e esclarecido, na hora da decisão optava pela pior direita.
Flávio Bolsonaro ainda não foi submetido ao ambiente de
campanha. Tem-se a impressão de que a esquerda está até evitando fazer marola
para esperar a confirmação da candidatura
de Tarcísio de Freitas à reeleição paulista, que deve ocorrer no início do
próximo mês.
Tão logo o clima comece a esquentar, o 01 vai ter que
explicitar suas posições ideológicas, suas simpatias por Donald Trump, seu
reacionarismo profundo. Terá também que dar respostas a encrencas pregressas,
como o esquema de "rachadinha" em seu gabinete, a proximidade
fraternal com a milícia no Rio e acusações de lavagem de dinheiro, entre outras
situações, para dizer o mínimo, desconfortáveis.
Por enquanto, a subida do candidato nas pesquisas, que
têm revelado empate em segundo turno contra Lula, não é desprezível,
porém não diz muita coisa sobre a corrida eleitoral pela frente.
É certo que o petista tem problemas, a começar pelo desgaste
do personagem, o cansaço que sua longevidade política naturalmente acarreta.
Mesmo alguns setores de inclinação progressista parecem sentir falta de
novidade, prefeririam um candidato de renovação da centro-esquerda que Lula
representa. Não se sabe bem as razões pelas quais conquistas verificáveis do
atual governo, em economia e outras áreas, não se transformam em aumento de
popularidade.
Lula, contudo, é um animal eleitoral e terá a máquina
federal na mão.
Quanto ao cenário mais amplo, há enorme incerteza. Não
apenas pelas aventuras de Donald Trump, mas sobretudo pelos desdobramentos do
caso Master. Virá uma delação? Será confiável? Está muito claro que até aqui o
abacaxi está muito mais difícil de ser descascado pela direita, em que pesem
powerpoints e tentativas frequentes de colocar o escândalo
no colo da esquerda.
É de se perguntar também se a manutenção de Jair
Bolsonaro em casa irá mudar alguma coisa. Deixará de ser tratado como
vítima do STF e do "sistema sádico" da esquerda. Flávio não ganha com
isso. Para um nome que não reúne qualidades para conquistar o cargo, talvez o
melhor seja continuar fazendo dancinhas, como a que apresentou no Nordeste ao
som de "01, novo capitão".

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