Dono do Master tinha o poder no bolso. A decisão do STF
que veio a público ontem não revela ainda quem é o ‘alto escalão da República’
O que Dias
Toffoli parecia se esforçar para manter longe da luz do dia foi
escancarado por André Mendonça em poucas semanas. Daniel
Vorcaro formou uma milícia, segundo as palavras do próprio ministro,
composta por “profissionais do crime” que atuaram de forma coordenada para
captar “servidores públicos dos mais altos escalões da República”. Leia-se:
Vorcaro tinha o poder no bolso. A decisão do STF que
veio a público ontem, no entanto, não revela ainda quem é esse “alto escalão da
República”. Concentra-se no segundo escalão, como os servidores do BC.
Ao assumir o caso, Mendonça deu autonomia
para a Polícia
Federal (PF) atuar e a blindou de influência do Planalto determinando
que a direção não deveria ter acesso à investigação. Colocou a apuração nos
trilhos, e parte do resultado veio a público ontem, com a revelação do modus
operandi da máfia de Vorcaro. Saem os punhos de renda nas relações com o poder
e entra o soco-inglês da gangue. A PF, com base no celular de Vorcaro, descreve
o “braço armado” do bando e as ilegalidades promovidas pelo que os próprios
criminosos chamavam de “A Turma”. Vorcaro surbonava, fraudava documentos e
monitorava alvos ilegalmente. Mandava “moer vagabunda”, dar “sacode” e “pau” em
desafeto, seguir e “quebrar todos os dentes” de jornalista, como se referiu a
Lauro Jardim, do GLOBO. Don Vorcaro tinha capanga para cometer seus desvios e
intimidar pessoas pelo caminho. Seu Peter Clemenza era Phillipi Mourão, chamado
de “Sicário”, que ontem, segundo a PF, atentou contra a própria vida após a
prisão.
Esse “núcleo de intimidação da organização” conseguiu
acessar informações sigilosas da própria PF, do MPF, da Interpol e do FBI,
provavelmente corrompendo servidores pelo caminho. O capítulo do Banco Central
mostra isso. Vorcaro tinha no bolso, segundo a PF, Belline Santana, chefe do
Departamento de Supervisão Bancária, e Paulo Sérgio de Souza, o chefe-adjunto,
responsáveis, em tese, por manter o Master nas rédeas. Mas, na verdade, eles é
que foram domados pelo banco:
— Hoje tem de pagar a primeira do Belline, ok? — diz o
cunhado Fabiano Zettel a Vorcaro.
Essa frente da investigação escancarou a passividade do BC
durante anos com o Master. Somente depois do avanço do trabalho da polícia, o
BC abriu uma sindicância, aos 45 minutos do segundo tempo, para tentar pegar
carona nas apurações. Àquela altura, a polícia já tinha tudo nas mãos com a
quebra dos celulares.
O sinal verde dado por Mendonça às investigações criou um
fosso na comparação com a condução por Toffoli. As informações que vieram a
público são importantes, mas são um aperitivo do que há nos celulares de
Vorcaro e seu bando. O jornalismo profissional, na contramão dos
influenciadores pagos pelo Master, revelou os fatos: as relações de Vorcaro com
a elite do Legislativo e do Judiciário, por meio de contratos com escritório de
parente de ministro, compra de participação em resort da empresa de outro e atuação
da bancada Master no Congresso.
Vorcaro atuou anos sem ser incomodado. Tinha a República no
bolso. A delinquência dele e de seu braço armado foi escancarada. Mas a
investigação da PF não pode parar aí. A ver se haverá gente com foro. Em tese,
tem mais por vir.

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