A sétima arte tem algo a dizer sobre como os
endinheirados e poderosos misturam lascívia, fortuna, vício e desmandos para
selar as alianças dos de cima contra os de baixo
Os tufos de fumaça no céu de Teerã escondem as assombrações
que atormentam o mandato de Donald Trump. As bombas roubam as manchetes
enquanto a queda de popularidade do presidente dos Estados Unidos perde
destaque. A iminente subida da inflação sai de fininho do noticiário. De modo
providencial, vai se desmanchando no ar o caso Epstein, este megaescândalo de
exploração sexual de adolescentes, tráfico de influência internacional e
corrupção de muitos matizes.
Há dois dias, o secretário de Comércio dos Estados Unidos,
Howard Lutnick, concordou em prestar depoimento para a comissão do Congresso
encarregada de averiguar as relações entre figuras públicas e o financista
Jeffrey Epstein (criminoso sexual condenado, que morreu na cadeia em 2019,
cumprindo pena). A notícia sobre Lutnick não teve repercussão, mas deveria. A
investigação tem potencial para revelar algumas das tramas íntimas que procuram
enlaçar a Casa Branca. Hillary Clinton já deu seu depoimento. Bill Clinton
também. Trump vai ter de depor? Não se sabe.
Só o que se sabe é que a guerra ateia fogo
no Oriente Médio, ao passo que o caso Epstein se esfumaça. Pode ser que as
perguntas se percam. Se esse for o desfecho, Jeffrey Epstein, depois de morto,
terá encontrado seu descanso eterno e poderá passear livremente, sem mais
importunações póstumas. Desocupado, poderá até ir ao cinema durante a tarde.
Ou, melhor ainda, o cinema poderá ir até Jeffrey Epstein.
Mais do que ir até ele, poderá nos explicar o lugar que esse nome ocupa na
cultura burguesa. De verdade. A chamada sétima arte tem algo a dizer sobre como
os endinheirados e poderosos – quase sempre homens – misturam lascívia,
fortuna, vício e desmandos para selar as alianças dos de cima contra os de
baixo.
A lista de filmes daria uma fila grande, dessas de dobrar a
esquina. Vou ficar aqui em apenas dois – esses dois valem por muitos. O
primeiro deles é De olhos bem fechados (1999), de Stanley Kubrick. Baseado no
livro Breve romance de sonho ( Traumnovelle), de 1926, escrito por Arthur
Schnitzler, a discreta obra-prima retrata o espanto do jovem médico Bill
Harford ao conhecer por dentro os hábitos lúbricos da alta classe. Em
inebriante ascensão social, atendendo pacientes da elite nova-iorquina, o Dr.
Harford (Tom Cruise) vê as portas dos mais elegantes salões da cidade se
abrirem ao seu desfrute. As coisas pioram quando ele despenca num festim
dionisíaco em que moças esbeltas copulam com rapazes vigorosos diante de uma
plateia de grã-finos. Todo mundo de máscara. O médico descobre: é aquilo que a
nata da sociedade faz para se divertir quando vai alta a madrugada. Ele
descobre também que as moças, pobres moças, tão bonitas, são prostitutas
recrutadas e descartadas como serviçais desprezíveis. Suas vidas não valem um
único centavo. O Dr. Harford entra em pane existencial.
De olhos bem fechados expõe os rituais de espoliação dos
corpos, durante os quais os senhores sorvem, como vampiros gulosos, a
vitalidade de servas alienadas. No livro original, que se passa na Viena de cem
anos atrás, o itinerário é o mesmo – só a conformação das classes sociais muda
um pouquinho. O que não importa; o que conta é que, no livro ou no filme, tanto
faz, o imbroglio chamado Epstein já se deixava entrever. Com nitidez.
Agora, o segundo filme. Se você suportar uma dose maior de
escatologia, convém dar uma olhada em Calígula ( 1979). Há uma nova montagem,
menos suja, disponível na Netflix. Produzido por Bob Guccione, o magnata da
revista Penthouse, inteiramente dedicada à pornografia chique, Calígula reedita
as bacanais opulentas do louco que fez de seu cavalo, Incitatus, um senador de
Roma. Aqui, não interessa tanto a biografia do imperador (interpretado por
Malcolm McDowell), mas o modo como o olhar da Nova York embotada de dólares
enxergou essa figura desmiolada e perversa. O modo de ver nos diz tudo sobre
quem vê. E, para quem vê, o poder se realiza somente quando passa a deglutir a
libido do outro, somente quando reduz aquele corpo a um brinquedo descartável
ou a uma peça decorativa anônima. O arbítrio se reproduz à medida que sacrifica
em seu altar os sonhos e os destinos dos seviciados. Epstein na veia.
Li O Manifesto Comunista pela primeira vez há 50 anos.
“Nossos burgueses, não contentes em ter à sua disposição as mulheres e as
filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer
em cornearem-se uns aos outros. O casamento burguês é, na verdade, um regime de
propriedade comunal das esposas.” Na época, eu me diverti com a ideia de que os
burgueses, ao menos segundo Marx e Engels, tinham deleites adúlteros. Eu ria.
Pelo menos, não eram assim tão sérios.
Acontece que eu estava errado nas minhas primeiras
impressões sardônicas. No mundo de Jeffrey Epstein, aquilo que Raul Seixas
dizia venerar acima de tudo, “a beleza de deitar”, não vira comédia de
costumes: vira, isto sim, um comércio de detritos humanos. O poder produz
prazer pelo gesto de impor humilhação aos indefesos. O Marquês de Sade, o
libertino do Iluminismo, é o padroeiro do caso que Trump prefere abafar.

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