Ministro reconhece suspeição no caso Master que avança
sobre o União Brasil
A crise do Supremo Tribunal Federal ganha panos quentes com
a decisão do ministro Dias Toffoli de se declarar suspeito para a relatoria do
mandado de segurança pela instalação da CPI do Master na Câmara dos Deputados e
para o julgamento da Segunda Turma que vai se manifestar sobre a prisão de
Daniel Vorcaro, dono do banco.
Por quanto tempo, não se sabe, até porque o ministro
Alexandre de Moraes, nomeou, para seu gabinete, o delegado da Polícia Federal
Fábio Schor, seu braço direito nos inquéritos do golpe e das ‘fake news’, e o
Fórum de Lisboa, popularmente conhecido como “Gilmarpalooza”, já está anunciado
para os primeiros dias de junho. Abre-se, pelo menos, a perspectiva de que os
holofotes do caso venham a ser partilhados com a política.
Não há dúvida, no entorno do presidente, de que sua
popularidade e intenção de voto têm pago a conta do escândalo do Master pela
condição de “representante máximo do status quo”, como disse o presidente do
PT, Edinho Silva, ao Valor.
A informação de que o ex-prefeito de
Salvador e secretário-geral do União, Antonio Carlos Magalhães Neto, recebeu R$
3,6 milhões do Master e do Reag, começa espalhar, à direita, o estrago
promovido pelo escândalo.
A informação saiu de um relatório do Coaf ao qual O Globo
teve acesso. O conselho, que monitora movimentações financeiras suspeitas, é
subordinado ao Banco Central e seus relatórios são compartilhados no Sistema
Eletrônico de Informações, do governo federal. Enquanto foi relator do caso,
Toffoli determinou que os relatórios fossem compartilhados unicamente com seu
gabinete. Ao substituí-lo, o ministro André Mendonça restabeleceu o fluxo
determinado por lei.
Já se sabe que os fundos de previdência de prefeituras e
governos lesados pelo Master, os contatos na agenda de Vorcaro, os
parlamentares que apresentaram projetos em seu benefício e aqueles a quem faz
referência nas mensagens de WhatsApp conhecidas, são, majoritariamente, de
partidos de direita. O depósito na conta de ACM Neto, porém, é o primeiro duto
comprovado do escoamento, para a política, do rombo de R$ 60 bilhões aberto
pelo banco. Outros virão.
Ex-prefeito de Salvador e pré-candidato do partido ao
governo da Bahia, ACM Neto foi um dos maiores entusiastas, no DEM, da fusão com
o PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro elegeu-se em 2018. Da fusão, nasceu o
União, que recebeu o terceiro maior quinhão do fundo partidário (R$ 107
milhões) em 2025. O partido cresceu tanto que virou uma agremiação amorfa.
Abarca de Milton Leite, o ex-presidente da Câmara paulistana ao presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (AP), passando pelo relator da PEC da Segurança, Mendonça
Filho (PE), e pelo senador Sergio Moro (PR).
ACM Neto passou a secretário-geral desta massa amorfa,
cedendo a presidência a Antonio Rueda, egresso do PSL. Ao assumir o União,
Rueda disse que gostaria de comandá-lo como uma empresa. Se a delação da máfia
dos combustíveis vier a ser aceita, como mostraram Breno Pires e Arthur
Guimarães na Piauí, se saberá o quanto Rueda ajudou também os negócios do crime
organizado.
No ano passado, ACM Neto deu mais um passo, avalizando a
federação entre o União e o PP do senador Ciro Nogueira (PI), requerida, mas
ainda não avalizada pelo TSE. O escândalo do Master deriva, em parte, da
retranca imposta ao aparato de controle da corrupção, do Ministério Público ao
STF, a partir da invalidação da Lava-Jato. E Ciro Nogueira personifica, como
poucos, esta retranca. Pelo papel exercido no impeachment de Dilma Rousseff,
pela formatação do poder do Centrão no Congresso e pelo papel assumido no
governo Jair Bolsonaro.
O presidente do PP forma com Rueda a dupla que,
potencialmente, mais tem chance de ser atingida pelas duas maiores
investigações em curso na República, a do Master e a da máfia dos combustíveis.
A despeito da proximidade de ACM Neto com a dupla, é na sua vizinhança que se
deve procurar a origem do depósito.
O ex-prefeito é vizinho e amigo de Augusto Lima, ex-sócio de
Vorcaro. Na nota em que justifica o depósito, Neto o atribui à prestação de
serviços de sua consultoria na “análise da agenda político-econômica nacional”.
Correligionários a definiram com uma frase: “Igual à nota da Vivi”.
Reputaram-na tão pouco convincente quanto a nota da mulher do ministro
Alexandre de Moraes, Viviane Barci, para justificar o contrato de advocacia de
R$ 129 milhões com o Master.
No União, a avaliação é que este depósito será mais danoso a ACM Neto do que a proximidade do PT baiano com Lima. Isso porque esta relação foi construída por dois ex-governadores, o senador Jaques Wagner (PT) e ministro da Casa Civil, Rui Costa, na privatização da Empresa Baiana de Alimentos, dona de supermercados populares. Esta operação originou o Credcesta, cartão consignado associado ao Master quando Augusto Lima se juntou a Vorcaro. Quando o governador e candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues, assumiu a Bahia, em 2023, esta relação havia se diluído.
O impacto político do Master mal começou. O futuro da CPI agora está nas mãos do ministro Cristiano Zanin. O depósito na conta de ACM Neto mostrará se o impacto regional sobre as campanhas dos envolvidos com o banco, em todo o país, dará, ao caso, concretude capaz de neutralizar o estrago generalizado sobre o Estado e sobre seu chefe.

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