Com um rombo de 8,5 bilhões de reais, o banco do bispo
Edir Macedo é a nova dor de cabeça do Banco Central, do FGC e do mercado
Oescândalo do finado Banco Master, que desde o ano
passado vem sacudindo os três poderes da República e o mercado financeiro, tem
camuflado uma nova crise na praça. Trata-se do Digimais, o banco do bispo Edir
Macedo, da Igreja Universal, que tem como braço político o partido
Republicanos. Segundo estimativas de mercado, o patrimônio líquido da
instituição está negativo em cerca de 8,5 bilhões de reais.
Desde que a crise do Master veio à tona, o mercado passou a
olhar com lupa para a saúde de alguns bancos pequenos, pelo impacto que a
quebra de alguns deles poderia causar ao patrimônio do FGC. Com a liquidação do
Master, outras instituições envolvidas com o banco de Vorcaro foram liquidadas
ou sofreram intervenção. Foi o caso do Will Bank, da corretora Reag, do banco
Pleno, do ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima (com tornozeira eletrônica), e do
Banif, também ligado aos sócios do Master.
O que chama a atenção no Digimais é a forma de operar, muito
semelhante à do Master. Uma delas é inflar artificialmente o patrimônio dos
seus fundos para melhorar o balanço do banco para que, assim, possa emitir mais
CDBs. Como o Master, o Digimais também coloca seus papéis a taxas bem acima das
praticadas pelas instituições mais sólidas, de até 125% do CDI.
Assim como o Master, o Digimais usa como isca para seus
clientes a garantia do FGC para depósitos de até 250 mil reais. Finalmente,
também como o Master, o Digimais contou com a ajuda das plataformas da XP e do
BTG para espalhar seus CDBs na praça.
As coincidências não param aí. Outra operação nos mesmos
moldes do Master foi a venda de carteiras de crédito fraudulentas para outras
instituições, assim como Vorcaro fez com o BRB. Uma dessas irregularidades do
Digimais acabou indo parar na Justiça, e o processo corre na 13ª Vara de São
Paulo, onde aguarda julgamento.
A ação foi movida pelo fundo EXP1, que alega ter sido lesado pelo Digimais ao lhe vender carteiras de crédito falsas. Em 28 de fevereiro do ano passado, o EXP1 pagou 650 milhões de reais pelas carteiras de crédito consignadas do Digimais, e, como de praxe, aguardou a entrega dos documentos comprovando os créditos em carteira. O Digimais adiou ao máximo a entrega dos documentos que comprovavam os créditos nas carteiras, só apresentando-os em maio, três meses após a venda.
Os documentos foram, então, analisados por uma consultoria
internacional, a UHY lnternational Bendoraytes, contratada pelo fundo para
avaliar os créditos. Em agosto, a auditoria apresentou seu relatório. A
consultoria apontou uma grande fraude. Dos 55 mil contratos das carteiras de
crédito, no valor de 650 milhões de reais, adquiridos pelo EXP1, 22 mil não
tinham lastro, ou seja, eram falsos. E eram justamente as maiores carteiras, no
valor de 500 milhões de reais. Pior. As carteiras sem lastro, como o fundo veio
a descobrir, eram compostas por créditos do Master e da Reag (a gestora e
administradora dos fundos do Master também liquidada pelo BC).
O fundo pediu explicações ao banco, que confirmou a fraude,
ao admitir que os créditos não existiam. E tentou oferecer novas carteiras.
Como os originadores das carteiras eram os mesmos, ou seja, a Reag e o Master,
o EXP1 declinou e pediu o estorno do dinheiro investido, mais os juros do
período. O Digimais tentou uma negociação e pediu um prazo para ajustar o
pagamento.
Um mês depois do fundo ter entrado na Justiça e comunicado a
fraude ao Banco Central, veio à tona o escândalo do Master, com a venda de
carteiras de crédito fraudadas para o BRB, no valor de 12,7 bilhões de reais.
Foi então que os gestores do fundo EXP1 descobriram que estavam envolvidos no
mesmo tipo de golpe.
Ainda que em uma ordem de grandeza diferente do
escândalo do Banco Master, o caso do Digimais tem potencial para causar muito
tumulto na praça, principalmente pela influência do Republicanos no Congresso,
mais especificamente da bancada evangélica, que abriga boa parte dos políticos
do Centrão.
O ponto de interrogação do mercado é até que ponto uma ação
mais dura do BC sobre essa pequena instituição, que há quatro anos vem operando
no vermelho, pode provocar uma fúria apocalíptica entre os evangélicos e
dificultar a situação do governo em um complicado ano eleitoral. O que se
avalia é se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará disposto a comprar
uma briga com Edir Macedo justamente quando está em busca de apoio para
enfrentar o senador Flávio Bolsonaro, do PL, filho mais velho do ex-presidente
Jair Bolsonaro, nas eleições presidenciais.
O Digimais, embora um tamborete, como o mercado chama
jocosamente os bancos pequenos, pode acabar interferindo numa decisão técnica
do BC, assim como ocorreu com o Master, que levou mais de três anos para ser
liquidado por causa de pressões políticas sobre a instituição. Como tem vindo
diariamente à tona, o banqueiro Daniel Vorcaro e seus sócios, Augusto Lima e
Maurício Quadrado, tinham relações muito próximas com políticos de todos os
matizes ideológicos, juízes do Supremo Tribunal Federal – notadamente Alexandre
de Moraes e Dias Toffoli – além do suporte de instituições do mercado
financeiro, como o BTG Pactual e a XP – o que lhe deu fôlego para operar de
forma arriscada e fraudulenta. O Master foi liquidado em novembro do ano
passado pelo BC. Somados o banco e instituições correlatas, o rombo no Fundo
Garantidor de Créditos (FGC) foi de 52 bilhões de reais.
Ocaso do Digimais passa por diferentes rotas
políticas, embora tenha florescido no governo Bolsonaro. Enquanto tentava
reaver o dinheiro pago pelas carteiras de crédito, o EXP1 foi surpreendido com
a mudança do presidente do Digimais. Thiago Urbaneja foi substituído por
Aldemir Bendine, que se recusou a fazer o estorno. Bendine foi presidente do
Banco do Brasil e da Petrobras, e é ligado ao PT. Muita gente do mercado
ironiza que o bispo, de extrema direita, tentou colocar alguém do PT para
negociar a dívida do seu banco com o Banco Central, presidido por Gabriel
Galípolo, identificado com a esquerda. Bendine chegou a ser preso em 2017, na
operação Lava Jato, por ter sido acusado pelos delatores da Odebrecht de ter
pedido propina de 3 milhões de reais a empreiteiras para facilitar negócios com
a Petrobras, quando presidia a companhia.
“É preciso ficar claro que o Digimais possui muitas conexões
com o Master. Tem as mesmas classes de ativos, os mesmos gestores e os mesmos
administradores do Master”, me disse um analista do mercado que investigou as
contas do Digimais.
Esta relação fica evidente ao se verificar que a corretora
que gere os fundos do Digimais, a ID, tem entre seus sócios e administradores
ex-executivos do Master. Um deles é Rodrigo Balassiano, que foi executivo da
corretora do Banco Master antes de assumir a liderança da ID corretora. E mais:
a ID corretora está estruturada sob uma holding chamada Bekoach, controlada por
uma empresa chamada GSM, que tem como sócios os mesmos sócios do Banco Master.
A forma de atuar da ID também é muito semelhante à da Reag,
a corretora de João Carlos Mansur, que administrava os fundos do Master. No
caso do Master, a Reag era responsável por inflar o patrimônio do banco ao
elevar artificialmente os valores das empresas que eram colocadas nos fundos da
instituição. Como demonstrou a operação Compliance Zero, da Polícia Federal e
do Ministério Público, que levou à prisão de Daniel Vorcaro e de outros
diretores do banco, em novembro do ano passado, as empresas que compunham os
fundos do Master estavam quebradas ou em recuperação judicial, como a Light, a
Oncoclínicas, a Mais Médicos, a Ambipar. Para completar, todas elas pertenciam
a Nelson Tanure, também investigado pela operação Compliance Zero.
A Reag está sendo investigada em outra operação da Polícia
Federal, a Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, que inspeciona um
esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação ligado ao PCC. A Reag é
suspeita de usar fundos para ocultar valores de combustível adulterado e de
movimentar cerca de 30 bilhões de reais.
Ocorre que, no meio da crise do Master e da Reag, a ID
aumentou significativamente o seu patrimônio, que passou para 5,2 bilhões de
reais. Esse movimento levantou suspeita no mercado de que a corretora está
absorvendo as carteiras da Reag, que gerenciava mais de seiscentos fundos
ligados ao Master.
A ID está para o Digimais assim como a Reag estava para o
Master. Ela é a responsável pela administração dos fundos do Digimais. Como no
caso da Reag, a ID também tem reputação pouco ilibada. Seu sócio fundador, José
Roberto Giancoli Filho, o Beto, como é conhecido no mercado, foi investigado
pela CVM por várias irregularidades em administração de carteiras e por
operações fraudulentas, entre 2008 e 2011. Além disso, a ID responde a 204
processos judiciais.
Problemas como esses têm levado o FGC e parte do mercado a
criticar a gestão de Roberto Campos Neto, no Banco Central, pelo fato de ter
permitido a entrada de novas instituições sem o cuidado de investigar se seus
gestores teriam, no mínimo, competência e experiência para tocá-las.
O Digimais é um exemplo dessa falha. A relação do bispo Edir
Macedo com atividades do mercado financeiro começou em 2009, quando ele
adquiriu 40% de participação do então Banco Renner, com sede em Porto Alegre, e
que pertencia à família de mesmo sobrenome. Em 2013 o bispo já tinha 49% de
participação do Banco Renner. Mas foi em 2020 que ele, finalmente, comprou todo
o banco mudando o nome para Digimais e trocou a sede da capital gaúcha para São
Paulo. Até ser totalmente comprado por Edir Macedo, o Banco Renner – de
categoria S4, das instituições de menor porte do sistema financeiro – era um
sólido banco das lojas Renner, que operava, basicamente, com o financiamento de
veículos.
Ao assumir o controle da instituição, Edir Macedo fez
mudanças importantes. Para começar, colocou o bispo João Urbaneja no comando do
banco, que por sua vez, nomeou para a diretoria apenas pessoas ligadas à Igreja
Universal. Apesar de Urbaneja não ter qualificação técnica para tocar a
instituição, pois nunca trabalhou no mercado financeiro, o Banco Central
aprovou sua indicação. O resultado foi que Macedo, que pagou 3 bilhões de
reais, por meio da sua empresa BA Investimentos, por um banco super líquido, viu
em pouco tempo seu negócio se transformar em uma instituição que só opera com
prejuízo. Talvez por isso, o Banco Central tenha levado sete anos para permitir
a transferência do controle integral do banco para Edir Macedo, o que só viria
a ocorrer em 2020, no governo Bolsonaro.
Em 2022, o Digimais já apresentava sérios problemas de
caixa, registrando um prejuízo de mais de 740 milhões de reais. Boa parte disso
era resultado da gestão desastrosa de João Urbaneja, financiando times de
futebol e operando equivocadamente com a carteira de financiamento de
automóveis. Diante dos problemas de caixa, o BC exigiu a troca do presidente da
instituição. Urbaneja deixou o cargo, mas nomeou para o seu lugar o seu filho,
Thiago Urbaneja, de 41 anos de idade e também neófito no mercado, o que contribuiu
para o aprofundamento da crise.
Prevendo maiores dificuldades, o BC exigiu, então, que o
novo CEO nomeasse técnicos com experiência para conselho de administração do
banco. A indicada para presidir o conselho foi a ex-presidente da Caixa, a
economista Daniella Marques Consentino, que assumiu a presidência do conselho.
Seis meses depois, ela pediu desligamento da função, junto com outros
conselheiros.
Com os problemas do banco aumentando, o Banco Central
exigiu, no ano passado, que Edir Macedo colocasse 250 milhões de reais no
banco, para reforçar o caixa. Macedo atendeu à solicitação, mas, em
contrapartida, retirou os 2 bilhões de reais da Record que estavam investidos
no banco. Ou seja, deixou mais 1,75 bilhão para o FGC pagar, caso o banco venha
a quebrar.
O fato é que, desde o começo de 2022, o Banco Central vinha
insistindo com os gestores do banco que vendessem o Digimais para evitar sua
liquidação. Em janeiro do ano passado, quem apareceu como comprador foi
Maurício Quadrado, ex-sócio do banco Master até setembro de 2024, e grande
parceiro de negócios de Nelson Tanure. Tanure, inclusive, é visto pelo mercado
e pelo Ministério Público como o real sócio do Master. Por motivos óbvios, o BC
negou a operação.
A segunda tentativa de compra, também negada pelo BC, foi de
Tércio Borlenghi Junior, dono do grupo Ambipar, outro parceiro de negócios de
Nelson Tanure e, assim como o empresário, investigado por fraude pela Comissão
de Valores Mobiliários (CVM). “O grande problema é que o Edir Macedo, como mora
nos Estados Unidos, só trabalha com pessoas de sua inteira confiança, que não
necessariamente são as mais competentes”, me disse uma pessoa que teve contato
com a Universal. São quatro os eleitos por ele para tocar a igreja e seus
negócios no Brasil: seu genro, o Bispo Renato Cardoso, casado com uma de suas
três filhas, é o responsável pela gestão da Igreja Universal do Reino de Deus;
o Bispo Marcos Pereira é o presidente do partido Republicanos, que tem como
maior estrela o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas; o Bispo João
Urbaneja é o responsável pelo Digimais e é quem se reporta a Macedo (embora o
presidente da instituição, desde o ano passado, seja Aldemir Bendine); e o
presidente da Record, Marcus Vinícius Vieira.
O calcanhar de Aquiles de Edir Macedo, porém, é o Digimais.
O banco está repleto de operações controversas. No seu balanço, foram
encontrados títulos da mineradora Vale, de 1920, que foram precificados pela
corretora ID como valendo, na verdade, 650 milhões de reais. Na verdade, não
valiam nada. Também foram encontrados terrenos na Bahia, que lastrearam o fundo
Goiana, precificados pela ID em 150 milhões, quando valiam menos de 10 milhões
de reais. “Conforme foram sendo retirados esses ativos podres, o real balanço
do banco foi aparecendo”, me disse um integrante do mercado. E o que se viu foi
um rombo de quase 8,5 bilhões de reais.
Aldemir Bendine, no comando do banco, colocou como tarefa
tentar reestruturar a instituição, focando em crédito consignado e
financiamento de automóveis. A antiga carteira de automóveis foi vendida para a
ID, que remarcou seu valor em 3,5 bilhões, embora já não valesse nada. Ou seja,
a missão de Bendine é limpar o balanço do banco para tentar colocá-lo à venda.
“Mas não adianta. O banco precisa de dinheiro. O que está se querendo fazer é
tratar um doente de CTI com xilocaína”, me disse um integrante do mercado.
A situação do Digimais preocupa o FGC, que já perdeu quase
metade de seu patrimônio com o Master. Por essa razão, o fundo decidiu fazer
uma auditoria nos balanços do Digimais para saber a real situação do banco. O
que os técnicos do fundo encontraram, segundo fontes do mercado, foi
preocupante. Para começar, o Digimais trocou três vezes de auditoria de 2024
até agora, retirando todas as ressalvas feitas pelos auditores que apontavam
problemas na instituição.
Desde 2023, o balanço do Digimais tinha ressalvas quanto à
“Mensuração de Cotas de Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios”, as
tais carteiras de crédito. A maior parte do ativo dessas carteiras era um
pré-precatório, ou seja, sem prazo ainda para ser pago. Também foi detectado
que, desde o segundo semestre de 2022, o balanço do conglomerado Simpala,
composto por Consórcio e Financeira, também estava coalhado de ressalvas não
obedecidas. Nenhuma das ressalvas dos auditores foi observada pelo banco e
consertada. Em vez disso, o banco trocou os auditores.
Em vários fundos do banco o FGC encontrou sérias
irregularidades. No Alpha, com patrimônio de 545 milhões de reais, 100% do
saldo do fundo é composto por empresas não listadas em bolsa. Ou seja, o valor
real da carteira não pode ser mensurado pelo mercado. No fundo Omega, com
patrimônio de 316 milhões de reais, as demonstrações financeiras não foram
auditadas. No fundo Abel, com patrimônio de 141 milhões de reais, 100% do PL é
aplicado em empresas controladas e coligadas, cujo valor pode ser manipulado,
como ocorre com as empresas do fundo Alpha. Por fim, no fundo Delta, com PL de
115 milhões de reais, 100% do ativo é investido em uma única empresa,
desconhecida. No Tabor, com patrimônio de 1,1 bilhão de reais, o fundo de
direitos creditórios (as tais carteiras de crédito), 31% do saldo se referia a
operações já vencidas.
Diante de quadro escabroso, o mercado espera pelos próximos passos do BC. Como me alertou um arguto observador do mercado, “preste atenção que, até agora, o Republicanos não se colocou ao lado de nenhum candidato à presidência”, afirmou. E perguntou: “Será que o Digimais vai virar moeda de troca?”
O FGC, contudo, já dá como certo que o prejuízo cairá na sua conta. Sua proposta para o Bispo Edir Macedo,segundo fontes do mercado, é de que o FGC assuma 70% da dívida do banco, ficando os outros 30% do rombo de 8,5 bilhões para ser coberto pelo controlador que, até agora, tem oferecido resistência à proposta. A ideia do FGC, em caso de quebra do Digimais, é fazer um leilão para que seja comprado por bancos sólidos. No mercado já é dada como certa a disputa entre o BTG e o Nubank. Procurados pela piauí, Aldemir Bendine, João e Thiago Urbaneja, do Digimais, e José Roberto Giancoli, da ID, não responderam.

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