Alterações foram feitas depois que o ex-piloto da TAP,
Mauro Mattosinho, revelou que o verdadeiro dono dos aviões seria Antonio Rueda
Registros de quatro jatinhos atribuídos ao presidente do
União Brasil, Antonio
Rueda, e operados pela empresa Táxi Aéreo Piracicaba (TAP) foram
alterados após denúncia à Polícia Federal (PF). As mudanças incluem o número de
matrícula das aeronaves, a operadora e as empresas formalmente listadas como
proprietárias. As informações constam em documentos da Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac).
As alterações foram feitas depois que o ex-piloto da TAP,
Mauro Mattosinho, revelou que o verdadeiro dono dos aviões seria Antonio Rueda,
apesar do registro em nome de terceiros. Segundo Mattosinho, Rueda era citado
por funcionários e pelo dono da empresa de táxi aéreo como o líder de um grupo
que financiou clandestinamente a compra de aeronaves particulares.
Mattosinho trabalhou na TAP entre 2023 e agosto de 2025.
Durante esse período, transportou com frequência os empresários Roberto Augusto
Leme, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Mourad, o “Primo”. Ambos são
suspeitos de liderar um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC e estão
foragidos da Justiça.
Eles confirmaram a relação entre Rueda e a TAP em proposta
de delação premiada, de acordo com fontes que tiveram acesso ao material,
conforme revelou o ICL Notícias na semana passada.
A dupla foi alvo das operações Carbono Oculto, Tank e
Quasar, conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela PF. As
investigações apuram fraudes fiscais no setor de combustíveis e o uso de fundos
de investimento ligados à Faria Lima, centro financeiro da capital paulista. A
PF, no âmbito da Operação Tank, também investiga o uso da TAP no esquema de
lavagem de dinheiro de Beto Louco e Primo.
Três dias após as operações realizadas, em 31 de agosto de
2025, Mattosinho formalizou a denúncia à Polícia Federal. Pouco depois, em 18
de setembro, o ICL Notícias publicou, em parceria com o UOL, uma reportagem
detalhando as conexões entre Rueda e os jatinhos.
É justamente depois desse período que começam a surgir
movimentações nos registros da Anac. Documentos oficiais indicam que, a partir
de 4 de setembro, foram encerrados os contratos da TAP relacionados às quatro
aeronaves associadas a Rueda, avaliadas em R$ 75,7 milhões: um Raytheon
Aircraft (PR-JRR), um Gulfstream 200 (PS-MRL), um Cessna 560XL (PR-LPG) e um
Cessna 525A (PT-FTC).
Na sequência, três passam a ser operadas por uma nova
empresa de táxi aéreo, a Amaro Aviation, com sede em São Paulo, presidida por
Marcos Amaro, filho do fundador da TAM (hoje Latam), Rolim Adolfo Amaro.
Nesse tipo de contrato, cabe à operadora a gestão integral
da aeronave, incluindo, por exemplo, a manutenção, a atualização da
documentação e o cumprimento das exigências regulatórias da Anac.
Por meio de nota, a Amaro Aviation informou que não mantém e
nem nunca manteve qualquer contato com Antonio Rueda, “que sequer foi
passageiro de nenhum voo operado pela empresa”. “Nunca houve qualquer contato
por parte da pessoa citada (Rueda), ou de qualquer representante da pessoa
citada, com a Amaro Aviation para tratar de qualquer aeronave”, acrescentou a
companhia.
A TAP informou, anteriormente, ao ICL Notícias que “não pode
fornecer informações sobre clientes ou passageiros sem autorização destes ou
por requisição das autoridades competentes”.
Antonio Rueda nega ser dono das aeronaves e afirmou em nota
que “repudia com veemência qualquer tentativa de vincular seu nome a pessoas
investigadas ou envolvidas com a prática de algum ilícito”.
Mudanças em série e novos vínculos
As mudanças não se limitaram à operadora. Em dezembro de
2025, a empresa Fênix Participações solicitou à Anac a alteração da matrícula
de um dos jatinhos — um Raytheon Aircraft — que passou de PR-JRR para PS-CCW.
Segundo o piloto Mauro Mattosinho, essa teria sido a primeira aeronave
adquirida por Rueda.
A Fênix tem sede em Fortaleza (CE) e inclui entre seus
sócios o advogado Caio Vieira Rocha, amigo de Rueda e filho do ex-ministro do
Superior Tribunal de Justiça (STJ), César Asfor Rocha.
Meses depois, o mesmo grupo familiar aparece em outro
movimento envolvendo as aeronaves. Em fevereiro de 2026, o escritório Cesar
Asfor Rocha Advogados adquiriu um jatinho Cessna 560XL também atribuído a
Rueda.
O histórico desse avião revela uma nova sequência de
mudanças concentradas no período pós-denúncia.
A aeronave, então registrada sob a matrícula PR-LPG, foi
adquirida em março de 2025 pela Magic Aviation S/A — controlada pela Bariloche
Participações, que tem como único cotista o Viena Fundo de Investimento
Multimercado, de acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Em 28 de setembro, a empresa alterou sua razão social para
Vértice Participações S/A, mantendo, porém, o mesmo controlador: o contador
Bruno Ferreira Vicente de Queiroz.
A aeronave também teve sua matrícula alterada de PR-LPG para
PS-VRT. Pouco mais de quatro meses depois, em 9 de fevereiro de 2026, o mesmo
jatinho foi transferido para o escritório de advocacia ligado à família Asfor
Rocha.
O ICL Notícias entrou em contato com Bruno Queiroz, mas não
obteve retorno.
Por sua vez, o escritório Cesar Asfor Rocha Advogados enviou
nota em que afirma que “adquiriu em fevereiro de 2026 a aeronave de matrícula
PS-VRT em condições de mercado, de forma pública, documentada e declarada com
transparência às autoridades competentes.”
Ainda de acordo com a resposta, “a due diligence realizada
confirmou que o anterior proprietário não é nem possui qualquer vínculo, direto
ou indireto, com pessoa politicamente exposta, incluindo a pessoa mencionada
pela reportagem. A aeronave é utilizada exclusivamente pelos sócios do
escritório, sendo que a pessoa [Antonio Rueda] citada não a utilizou. “
Empresa registrada como dona de jatinho muda de nome
Movimento semelhante foi identificado em outro avião da
frota atribuída a Rueda. O jatinho Gulfstream G200, de matrícula PS-RML, também
registrado em nome de uma empresa ligada à Bariloche Participações e dirigido
por Bruno Ferreira Vicente Queiroz — a Rovaniemi Participações — passou por
alteração da razão social no mesmo período.
Em outubro do ano passado, a companhia foi rebatizada como
PLK Altitude S.A., mantendo vínculos com a estrutura original.
A quarta aeronave citada pelo piloto, o Cessna 525A, está em
nome da Serveg Serviços, que em novembro do ano passado rompeu o contrato com a
TAP.
Localizada em imóvel da periferia de Imperatriz (MA), a
empresa tem como atividade principal criação de bovinos, mas registra
atividades secundárias diversas, que vão de serviços de malote não realizados
pelos Correios a limpeza, conforme cadastro na Receita Federal. A firma está em
nome de Antonia Viana Silva Soares.
Procurada em setembro do ano passado, quando o ICL Notícias
publicou a primeira reportagem sobre o caso, ela disse que desconhece as
atividades da Serveg. “Não sei o que você está falando, não”, disse ela,
desligando o telefone. Em seguida, bloqueou o número de contato da reportagem.
Tentamos contato novamente com Antonia Soares ontem, mas não obtivemos
retorno.
Jatinho que voou para Grécia é vendido
Em entrevista ao ICL Notícias, Mattosinho contou que Rueda
estava interessado em adquirir uma quinta aeronave, um Gulfstream de Série 550,
matrícula PS-FSR, capaz de realizar viagens intercontinentais. Conforme
mostramos, o jatinho esteve em Mykonos, na Grécia, quando Rueda comemorou seu
aniversário de 50 anos na ilha, em agosto do ano passado.
À reportagem, Rueda disse ter viajado em voo comercial da
British Airways para a Grécia, dias antes do voo identificado pela reportagem.
E negou ter adquirido a aeronave citada pelo piloto.
De acordo com documentos da Anac, o avião foi vendido em
janeiro deste ano, por R$ 55 milhões, a uma empresa com sede em Brasília, a BSA
Administração de Bens Próprios. A reportagem não identificou vínculos da
companhia com Rueda.

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