Demografia já passou a jogar contra o enriquecimento do
Brasil
Ainda assim, tecnologias e avanços isolados poderão
melhorar qualidade de vida
Já me conformei a ver o Brasil como um suave
fracasso (a ótima expressão é do embaixador Rubens
Ricupero). O adjetivo "suave" é importante. É pouco provável que
o país se torne um Estado falido, a exemplo de Sudão, Haiti ou mesmo da
Venezuela, mas também me parece difícil que venhamos a dar o tão almejado salto
para o grupo de nações mais desenvolvidas. Esse é um bonde
que já perdemos. Se tivéssemos tomado decisões melhores algumas décadas
atrás, talvez tivéssemos conseguido, mas, agora, a demografia passa a jogar
contra. Envelhecemos antes de enriquecer.
Calma, daí não se segue que você precise
imitar Stefan
Zweig. Embora tenha ficado difícil acreditar no Brasil como "país do
futuro", nós ainda deveremos experimentar melhorias na qualidade de vida.
Avanços tecnológicos desenvolvidos mundo afora continuarão a ocorrer, se é que
não se multiplicarão. Muitos deles geram produtos que ampliam bem-estar,
saúde, educação,
segurança. Como sempre lembro aqui, o habitante médio do planeta hoje tem
acesso a muito mais confortos, prosperidade e informação do que um rei europeu
da Idade Média.
Mesmo no que depende só de nós, dá para melhorar. Talvez não
o bastante para entrarmos para a elite global dos países, mas o suficiente para
reduzir algumas das asperezas que empatam nossas vidas. A educação brasileira,
por exemplo, ainda é muito ruim, mas já não faltam vagas para crianças e
adolescentes dispostos a estudar.
Nossa infraestrutura ainda deixa muito a desejar, mas uma
linha telefônica não é mais um artigo de luxo que pessoas deixam como herança
para seus filhos. Em algumas poucas áreas, até conseguimos competir em
condições de igualdade com os melhores do mundo. Penso aqui em Embraer e
nos setores não arcaicos do agronegócio.
O estoicismo ensina que devemos nos contentar com aquilo que
a realidade nos impõe. Isso não significa aceitar tudo passivamente, mas
centrar nossos esforços só naquilo que está em nosso alcance modificar. Vamos
tentar tirar o melhor de nosso fracasso.

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