Candidato da extrema direita quer 'tesouraço' nos gastos
e menos impostos ao mesmo tempo
Se houver protesto contra um governo Bolsonaro 2, haverá
cenoura diversionista ou chicote?
O vago plano econômico de Flávio
Bolsonaro é em tese impopular, ao menos quanto a contas do governo.
Prega redução de impostos e cortes de despesas. Quanto menos tributação, maior
o tamanho da contenção de gastos. A rigor, porém, há promessa de aumento de
impostos, de início (corte de gasto tributário é isso).
O risco de protesto é evidente, do topo ao chão da escala de
renda. A questão fiscal será problema para qualquer governo, mas o modus
operandi bolsonarista em relação à divergência é problema ainda maior. Quanto
ao mais, o
candidato a Bolsonaro Segundo diz que as "diretrizes e
lições" são as do governo Bolsonaro Primeiro.
O plano é apenas em tese impopular. Javier Milei,
na Argentina,
inspiração bolsonarista, fez ajuste fiscal inédito, afora aqueles de tempos de
grande guerra ou de hiperinflação terminal, chegando a cortar em 30% o valor
real de rendas de pessoas que recebiam pagamento do Estado. Milei começa a cair
pelas tabelas, mas a "motosserra" autoritária não levou seu prestígio
a nível negativo nem impediu vitória eleitoral nos primeiros dois anos.
Décadas de sofrimento econômico, raiva de
esquerdas e do sistema político e a política do entretenimento odiento das
redes podem incentivar sacrifício voluntário, se não servidão sectária. Decerto
o caso brasileiro está longe do descalabro argentino –exige menos
"tesouraço", como diz Flávio. Por outro lado, nossos costumes e
acordões são menos tolerantes das reviravoltas "hermanas".
Isto posto, corte é problema, ao menos no início do arrocho.
O gasto federal é 43% Previdência (INSS), 18% pessoal, 15,5% de outros
benefícios sociais (Bolsa Família, BPC, seguro-desemprego etc.), 13,8% saúde e
educação (tudo isso dá 90% da despesa). Redução do gasto tributário implica
aumento de imposto para classe média alta e rica que ganha com o Simples,
setores empresariais, Zona Franca; talho de isenções de IR para quem gasta com
saúde e escola privadas, para cesta básica e outras isenções "sociais".
Dado o chicote do arrocho, qual será a cenoura ou a manobra
diversionista? Um terror de segurança pública, como a de Nayib Bukele, de El Salvador,
outra inspiração bolsonarista?
Como será no Congresso? Imobilismo ou barganha terminal?
Bolsonaro Primeiro instaurou o semiparlamentarismo de avacalhação em abril de
2020. Entregou boa parte da governança a Arthur Lira (PP-AL), grão-duque
das emendas e da eternização do centrão, e, depois, também a Ciro Nogueira (PP-PI),
grande amigo de Daniel
Vorcaro. Flávio vai tirar os golpistas da
cadeia, a começar pelo pai, o que pode criar mais instabilidade. Para abafar
protestos, tentará desde logo implementar a "democracia iliberal"?
Claro que se descreve aqui um cenário quase racional.
Bolsonaro Primeiro levou para o governo gente sem formação intelectual,
lunática, incapaz, perversa e golpista; os Bolsonaro passaram a vida no esquema
do dinheiro vivo, na pregação de genocídio e ditadura e
na confraternização com milicianos e torturadores, por exemplo. Pode haver de
colapso na anomia a repressão organizada. Mas a elite brasileira, boa parte
direitista chucra por tradição, que bancou desgraças como Jânio, ditadura,
Collor e Jair, parece dizer que virá um tucanato redivivo (coitado) com Deus,
pátria e família; que a breve passagem dos golpistas pela cadeia e a
experiência nacional de 2022 vão desanimar novo golpe. Pode ser. Ou pode vir o
bananismo iliberal.

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